Poderemos afirmar que o projecto de criação do Museu do Teatro de Marionetas do Porto surge numa feliz conjugação de espaço e de tempo. Na verdade, a abertura do Museu terá um enorme significado no âmbito do projecto de recuperação da baixa portuense, que actualmente decorre sob a responsabilidade da Sociedade de Reabilitação Urbana- Porto Vivo. Aliás o museu insere-se excepcionalmente na filosofia da SRU, expressa no seu Masterplan, em termos de equipamento cultural capaz de criar novas dinâmicas de atracção das populações para o centro histórico da cidade, actualmente em processo acelerado de desertificação. De notar que o TMP é a única companhia de teatro portuense que tem sede no centro histórico. O museu localizar-se-á a cerca de duzentos metros do Teatro de Belomonte (sede), na Rua das Flores, uma das mais belas artérias do Porto, na qual coexistem instituições como a Misericórdia do Porto e a Fundação da Juventude, ourives e alfarrabistas, a par de um comércio tradicional progressivamente descaracterizado.
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Fachada antes de obras |
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Fachada depois de obras |
É evidente que o interesse do projecto não se esgota na sua localização privilegiada. O TMP é uma companhia fortemente implantada na cidade do Porto (e também num plano nacional e internacional) e a corrente de público criada nos últimos 20 anos de vida da companhia constituirá um forte potencial de visitantes do Museu. A actividade permanente da companhia, que contabiliza cerca de sete mil espectadores por ano, no Porto, constituirá certamente um excepcional catalizador de renovação do público do Museu. Se analisarmos os equipamentos culturais actualmente instalados na cidade, facilmente concluiremos que nenhum constitui interesse para um público mais jovem. O Museu será pois o único equipamento da zona central da cidade capaz de atrair o interesse de um público escolar com uma ampla latitude etária (dos 3 aos 19 anos) e de um público de características familiares.
Actualmente, a companhia possui cerca de 1200 peças, entre marionetas e objectos cénicos, com grande potencial expositivo. Existindo um registo videográfico das produções da companhia, existe consequentemente um registo prévio de todos os materiais. O inventário e registo da colecção, de um ponto de vista museológico, será realizado ao longo dos nove meses que antecedem a abertura do museu, ao mesmo tempo que se efectuará a selecção e restauro das peças a expor.
Uma das mais interessantes características deste projecto é, sem dúvida, estar intimamente ligado a um projecto de criação artística. Este factor resulta no seguinte:
- A colecção é por natureza renovada e o núcleo expositivo adquire uma grande dinâmica, já que a companhia produz dois novos espectáculos por ano, cujas marionetas e objectos cénicos enriquecerão a todo o momento a colecção existente, seja por integração no material exposto seja através de exposições temporárias temáticas.
- Cria-se uma extraordinária dinâmica de público para o museu, através dos milhares de pessoas que anualmente assistem aos espectáculos da companhia.
- O conceito de animação museológica no próprio espaço do museu é aqui, em parte, ocupado pelas representações num teatro da cidade. Esta relação teatro/museu, ou seja, marionetas com uma existência teatral, vistas em contexto cénico, com alma, mais tarde revistas no seu estado de vida latente num expositor do museu, parece-nos revestir-se de um enorme fascínio. E o contrário também será possível, já que a companhia apresenta periodicamente reposições de espectáculos passados.
É de referir ainda que, do ponto de vista do turismo cultural, o Museu poderá afirmar-se como um ponto de referência da baixa portuense e do seu centro histórico. Na verdade, analisando o panorama dos espaços museológicos actualmente existentes no coração da parte velha da cidade, verifica-se que não são em grande número nem muito atractivos para uma cidade que ostenta o título de Património da Humanidade. Acresce que o Museu se localizará num local de grande afluência turística, exactamente no local de passagem da parte alta do centro histórico para a beira-rio, o que potenciará naturalmente o número de visitantes.
O edifício adquirido há três anos pelo TMP possui a área de 500 m2, o que se nos afigura um espaço adequado para o projecto (o museu congénere de Lisboa dispõe de 400 m2). Não será porventura um grande museu, mas possuirá certamente o ambiente e a magia apropriados ao universo das marionetas. A sua dimensão é vista também como uma opção estratégica, já que permitirá à companhia – constituída por uma pequena estrutura de 8 profissionais - uma gestão equilibrada do projecto. O projecto de arquitectura foi elaborado por um reputado arquitecto portuense, o arq. José Gigante. De referir que o mesmo arquitecto assinou o projecto do Teatro de Belomonte, sede da companhia, um excelente exemplo de renovação de prédio histórico ao qual, em 1993, foi atribuída uma Menção Honrosa, na categoria de Reabilitação, no âmbito do Prémio Nacional de Arquitectura.
A adequação do edifício ao projecto museológico obedece a critérios simples e objectivos. Todos os pisos são amplos e apenas serão instalados novos sanitários (masculino, feminino e deficientes) no r/c. A cave destinar-se-á às reservas e oficina de construção/restauro. Este piso é visitável pelo público e será concebido quase como uma zona expositiva, de modo a que os processos de construção de marionetas e as suas diversas fases possam ser apreciadas e compreendidas pelos visitantes.
O piso de entrada do museu possui uma zona de acolhimento e duas vitrinas cenografadas com cenas de espectáculos. Um mini-auditório permitirá ainda o visionamento de imagens de espectáculos para o público em geral e visionamento de vídeos de carácter didáctico para grupos. Ao fundo será instalada uma zona administrativa e toda a documentação que a companhia possui relativa ao Teatro de Marionetas, nomeadamente literatura, multimédia e material gráfico, que poderão ser consultados por interessados.
Os dois pisos superiores serão amplamente preenchidos com material expositivo. Uma grande parte dos “expositores” são constituídos por fragmentos da própria cenografia dos espectáculos, que se articulam com imagens que permitem ao público compreender a utilização das marionetas e adereços em contexto cénico. Em termos de iluminação, será usado um conceito muito próprio, numa estética de design de luz teatral, isto é, uma luz geral branda complementada pela pontuação das peças por projectores de recorte. As entradas de luz do dia foram anuladas por portadas, mantendo-se contudo a ventilação de todas as áreas e o controle da qualidade do ar. Em termos de segurança o projecto prevê ainda câmaras de vigilância e detectores de fumo.
![]() 2º andar antes de obras |
![]() projecto para 2º andar |
![]() 2º andar depois de obras |
![]() 2º andar depois de obras |
![]() escadas depois de obras |
![]() escadas depois de obras |
A direcção do Museu será exercida pelo director artístico do Teatro de Marionetas do Porto assessorado por uma museóloga. São estas duas pessoas que, de há dois anos para cá, vêm definindo os conceitos e o desenvolvimento do programa museológico e são eles que assegurarão a gestão futura do projecto. O sector administrativo/financeiro será da responsabilidade da direcção de produção do Teatro que dispõe de assessoria contabilística. A gestão corrente do Museu será efectuada pelo seu responsável permanente. Este constituirá o único elemento fixo do staff do Museu. Todos os outros colaboradores, nomeadamente os que desenvolvem actividade no âmbito do serviço educativo e acolhimento de grupos escolares, serão contratados à medida das necessidades, conforme é prática da companhia na sua actividade de produção. Este conceito de estrutura agilizada será fundamental para garantir um dos pilares fundamentais em que assenta o conceito de gestão deste museu: usando recursos humanos da companhia teatral, poder constituir-se em projecto auto-sustentável. E é este, precisamente, um dos aspectos que se nos afigura mais interessante. Ao recorrermos aos técnicos de construção da companhia e aos seus actores poderemos transformar as visitas colectivas ao museu, seja ao nível de grupos escolares, seja ao nível de estudantes de teatro (no Porto existem quatro escolas) ou de outras instituições, nomeadamente as ligadas à educação, que frequentemente nos visitam, em experiências pedagógicas e artísticas de grande qualidade e profundidade.
A abertura deste museu representa um investimento da ordem dos 200.000€, o que se nos afigura francamente razoável e ajustado à dimensão do projecto e à estimativa anual de visitantes. Uma parte, cerca de 90.000€, foi já investida pelo TMP, ao longo de quatro anos, em rendas e na primeira fase de obras, que incluiu a reabilitação da fachada, sala de esposições do 2º andar e caixa de escadas. A sustentabilidade futura do projecto foi objecto de um estudo da Faculdade de Economia do Porto e baseia-se nos princípios anteriormente expostos.
Acreditamos que o Museu de Marionetas do Porto poderá ser, no futuro, mais um símbolo cultural da cidade, como já o é o Teatro de Marionetas do Porto, e um contributo importante para a sua identidade e desenvolvimento.
MUSEU DE MARIONETAS DO PORTO
Rua das Flores nº22
4050-262 Porto