1999: SE7E

Em Foco

25 de abril 1999

Texto:
Sofia Menezes

1 - Recordo-me muito bem de uma manifestação contra o aumento do custo de vida em 15 de abril de 73. Fui espancado pelos pides, uns tipos de fato escuro que na altura certa colocavam a braçadeira branca e desatavam a bater em tudoo que mexia.
    

O 25 de abril, vivi-o intensamente, com 18 anos. À entrada do liceu, fomos informados de que havia uma revolução. Foi um grande entusiasmo. O Liceu D. Manuel II era o liceu politicamente mais ativo do país. Cada intervalo das aulas era um comício. Tinha havido recentemente uma greve às aulas. Eu sentia uma grande inquietação com tudo isso. No dia da revolução fomos para a sede da Pide, que estava cercada. Não sabíamos bem o que se passava. Mas um ambiente revolucionário era tudo o que podíamos desejar naquela época de utopia. A época do poster do Che Guevara na parede por cima da cama...

2 - O “boom” artístico que ocorreu após a revolução fi dos momentos mis altos da vida cultural deste país das últimas décadas. Foi nessa altura que comecei a interessar-me pelo teatro, aliás, como muitas pessoas. Os anos 80 foram ainda anos férteis para a atividade teatral. Hoje vivemos a ressaca.

3 - Vivemos hoje numa sociedade materialista que cada vez mais se incompatibiliza com a cultura, veículo de enriquecimento humano, de autoconhecimento, a derradeira possibilidade de harmonização do homem com o mundo. Uma sociedade de consumo, na qual o lucro é a ambição absoluta e o dinheiro o valor supremo. Os valores estão na bolsa de valores. Vivemos num país que tem o maior centro comercial da Europa e o maior índice de iliteracia. Nesta ordem de ideias, a cultura é uma mercadoria pessimamente cotada na espiríto dos tecnocratas. Dos que nos querem impor um modus vivendi alienante a bem da globalização e da massificação. A verdadeira revolução, a que se dá no interior das pessoas, está ainda por realizar.

© Teatro de Marionetas do Porto 2008