2001: Eventos Clix.pt

“O Porto é uma cidade
muito fechada
a projetos culturais”
    
01 de janeiro 2001

    
    

Ligado ao Teatro de Marionetas do Porto há doze anos, João Paulo Seara Cardoso está a frente de uma companhia que agarrou na tradição bonecreira e lhe deu um toque de atualidade. Um percurso com alguns constrangimentos numa cidade que diz ser pouco aberta a inovações culturais.

Como é que surgiu o Teatro de Marionetas do Porto?

Surgiu há doze anos, mais ou menos espontaneamente, a partir da iniciativa de um grupo de pessoas de alguma forma ligadas ao teatro e às marionetas. O grupo significou uma especialização no trabalho das marionetas. O primeiro passo que a companhia deu nessa altura foi o de abrir o Teatro de Belmonte, onde permanecemos atualmente. Começámos numa linha agarrada à tradição das marionetas e, hoje em dia, estamos em busca de uma contemporaneidade do teatro de marionetas.

Em que é que consiste essa contemporaneidade?

Penso que nós fazemos um teatro especial. Os nossos últimos espetáculos têm privilegiado muito a imagem. Essa é uma das características do nosso trabalho mais recente: prescindir do próprio texto e dar às marionetas a carga simbólica em termso de signos do espetáculo, não só do vídeo, da música - signos dramatúrgicos que se elevam para além do texto - e é isso que nos tem levado para outros caminhos em termos de uma busca estética.

A companhia é muito alargada?

Nós somos uma pequena estrutura, de oito pessoas, divididas entre a produção, técnicos e pessoas ligadas à interpretação. A última peça que estreámos, “Macbeth”, que é um grande clássico bastante complicado, foi feita por quatro atores que se desdobraram em cerca de 40 personagens. É uma das nossas características: fazer muito com poucos.

Como é que se processa a criação das marionetas?

Cada peça tem uma construção própria e as marionetas são feitas especificamente para um dado projeto. Esse trabalho cabe a um escultor que trabalha connosco e toda a parte técnica das marionetas é feita por pessoas especializadas. O mesmo se passa em relação à música e à cenografia. Tudo é feito especificamente para cada espetáculo.

Os curiosos poderão rever as marionetas que viram num espetáculo?

Esse é o nosso próximo projeto, o do Teatro de Marionetas do Porto, que envolve a construção de um novo edifício. A Câmara do Porto cedeu à companhia um terreno situado em pleno centro histórico, em frente ao rio Douro. O edifício vai ter duas valências fundamentais: um auditório com 180 lugares e um museu que albergará a coleção da companhia que, atualmente, conta já com 500 marionetas.

Como é que caracteriza a cidade do Porto?

Não é uma cidade boa para artistas, para criadores. O Porto é uma cidade com determinados encantos por ser uma cidade muito profunda, tanto na arquitetura como no sentir das pessoas, mas é uma cidade extremamente conservadora, herança deste espírito burguês mercantil dos séculos passados. É uma cidade muito fechada a projetos culturais onde, por exemplo, nunca seria possível nascerem vanguardas culturais. Isso prova-se historicamente e há aqui também uma certa dose de provincianismo que se junta a estes fatores e que torna a cidade pouco aberta, pouco cosmopolita.

Acha que as iniciativas do “Porto 2001” servem para contrariar o estado das coisas?

Eu penso que o “Porto 2001” é uma coisa fantástica. Traz uma agitação à cidade e imensas criações importantes também para nós, criadores, vermos. Movimenta as pessoas e isso nota-se na frequência dos espetáculos.

Também nos espetáculos as marionetas?

A nossa afluência de público já vem de trás, mas este ano acentuou-se. Ter o “Macbeth” completamente cheio durante um mês numa sala grande, foi fantástico. De qualquer modo, penso que as pessoas que vivem não podem deixar de sentir uma coisa até agora. Não se tem passado muito de especial. Há um incremento de iniciativas mas há falta de uma massa de fundo, de uma coisa que mexa, que agite, que faça as pessoas interessarem-se. Na cidade não há praticamente nenhuma indicação relativamente ao Porto 2001. As coisas estão a passar-se muito dentro de portas. As iniciativas que estavam previstas para o ar livre, e são essas que vão ao encontro de um novo público, parece que estão a falhar.

Como espectador o que tem visto?

Apenas espetáculos de teatro e dança, por falta de tempo. Tem havido muito pouca coisa, relativamente aos outros anos. Há duas instituições com grande capacidade de produção, o Teatro Nacional de S. João e o Rivoli, que nos outros anos produzem muitos espetáculos, mas em relação aos quais eu não tenho notado um maior incremento na produção.

“O Teatro de Marionetas é uma experiência de sonho” Como é que começou a ligação com as marionetas?

Eu não tenho aquelas histórias fantásticas que os americanos têm. O que eu sei é que a minha paixão pelas marionetas nasceu com o teatro tradicional. Era muito interessado por questões da tradição portuguesa, até pelo trabalho que desenvolvia no Instituto da Juventude, e um dia conheci aquele que era o último bonecreiro da tradição portuguesa. Interessei-me muito por aquilo e mais tarde consegui que ele me ensinasse. Aí, senti que a tradição estava presa por um fio e quando ele morreu senti que me tinha deixado isso nas mãos. Comecei a fazer o Teatro D. Roberto, tentando reproduzir, já como erudito, esses caminhos que os bonecreiros utilizavam por todo o país. Curiosamente, tendo começado na tradição pura, vim dar a um extremo oposto.

Destaque um espetáculo que a companhia tenha agendado para breve.

Em Setembro temos a nossa grande produção, que é uma coprodução com o Teatro Nacional de S. João “Paisagem Azul com automóveis”. Os ensaios começam para a semana. É um daqueles espetáculos que criamos praticamente do nada. O trabalho desenvolve-se, como é moderno agora dizer-se, num “working progress”. É um espetáculo que é criado à medida que vamos avançando e sentindo as coisas, até se chegar a um resultado final. Os nossos espetáculos têm sido criados assim, por muito estranho que isso possa parecer. É um pouco angustiante. Não há nada a que uma pessoas se possa agarrar. No princípio é, como diz Peter Brook, “um grupo de cegos guiados por um cego”, mas depois começam a surgir algumas luzes. Tudo o que se faz são pequenas descobertas que, somadas, podem dar coisas muito interessantes, sempre com a preocupação de que a criação final seja o reflexo do sentir das pessoas durante o processo.

O que diz a quem ache que o teatro de marionetas é para crianças?

Eu diria que atualmente têm imensas oportunidades de contactar com o teatro de marionetas e sentir - como dizia recentemente o diretor do Instituto Internacional da Marioneta - que “o teatro das marionetas é provavelmente a arte dramática do próximo século”, graças ao seu universalismo. É a plataforma ideal para o cruzamento de todas as artes cénicas: o vídeo, a dança, a música, o teatro, os materiais. Dessa forma, consegue-se atingir uma contemporaneidade que se traduz numa ressonância no palco daquilo que se passa na vida das pessoas. As marionetas são duplos dos homens e, em termos de interpretação, tudo é possível: podem voar, podem auto-destruir-se. Tudo o que pessoas de carne e osso não podem. Eu diria que é uma experiência de sonho.

© Teatro de Marionetas do Porto 2008