CABARET MOLOTOV [2007]

O circo e as marionetas aproximam-se na poética do voo, as marionetas sem se sujeitarem às leis da gravidade, os artistas de circo desafiando-a. Uma vida aérea intermitente une a marioneta e o trapezista.

Cabaret Molotov é um espectáculo que resulta de um trabalho de experimentação em que tentamos levar o nosso modo de fazer teatro ao encontro de uma certa poética associada ao circo.
Também está presente nesta criação uma aproximação ao teatro musical com marionetas, que teve grande expressão na Europa nos meados do século passado.
É pois um cabaret melancólico que se inspira nas nossas memórias, mas iluminado pela nossa visão contemporânea do teatro e do mundo.
Em Cabaret Molotov, deambulam coristas apaixonadas, trapezistas, clowns absurdos, músicos de sete instrumentos, homens-coelho, homens-bala, ursos ciclistas, caniches cantores, dançarinos e bailarinas que dançam ao som de valsas, tangos, polkas, tarantelas e velhas canções de Kurt Weil.
Terá o Cabaret Molotov existido, ou tudo não passará de um lugar inventado por Vladimir, o Russo, para cenário do seu amor à trapezista Matrioska?

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Fotos

Fotografias de Paulo Barata

Ilustrações

Ilustrações de Pedro Ribeiro

Vídeo

Cabaret Molotov

Ficha Artística

Encenação e cenografia
João Paulo Seara Cardoso

Marionetas
Erika Takeda

Figurinos
Pedro Ribeiro

Coordenação coreográfica
Isabel Barros

Música
Gotan Project, Eric Satie, Kurt Weil, Robert Miny, Yann Tirsen

Desenho de luz
António Real e Rui Pedro Rodrigues

Produção
Sofia Carvalho

Interpretação
Edgard Fernandes, Rui Queiróz de Matos, Sara Henriques, Shirley Resende (instrumentista)

Operação de luz e som
Rui Pedro Rodrigues

Assistente de encenação
Pedro Ribeiro

Assistente de produção
Pedro Miguel Castro

Técnicos de construção
Inês Coutinho, Filipe Garcia, Pedro Pereira

Pintura de Marionetas
Inês Coutinho

Construção de estruturas
Américo Castanheira, Tudo-Faço

Confecção de figurinos
Cláudia Ribeiro - coordenação técnica
Celeste Marinho - mestra-costureira
La Salete Oliveira, Maria Glória Sousa Costa, Esperança Sousa, Ana Maria Fernandes, Rosa Pinto, Alice Assal - costureiras
Catarina Barros
- aderecista
Patrícia Mota, Joana Caetano - assistentes

Penteados e maquilhagem
Lea-b, cabeleireiros

Prof.ª danças de salão
Paula Basto

Montagem de luz
Rui Maia

Design gráfico
Daniel Marques

Fotografia de cena
Paulo Barata

Apoio
Orquestra Nacional do Porto

Ficha Técnica

Espaço Cénico:

boca de cena: 12m
profundidade: 15m
altura; 6,0m
- n.b.:é possível adaptar a cenografia a áreas um pouco menores

Luz:

Dimmers digitais - 96 circuitos - Prot. Com. DMX512
Mesa de luz ETC Express 24/48 ( Mat. da companhia )
Varas de luz ( ver planta em anexo )
Estruturas:
4 torres laterais com 4m de altura
Projectores :
31 Fresnel 1KW c/ palas e porta-filtros
14 Proj. Recorte 1Kw 25/50
6 Proj. Recorte 2Kw 25/50
4 Proj. Souce Four Par c/ palas e porta-filtros
4 Proj. Par 36( Mat. da companhia )
1 Mini Par c/ palas e Porta filtros( Mat. da companhia )
Filtros:( Mat. da companhia )

Som:

Sistema de amplificação stereo com reforço central para voz
3 monitores colocados no palco
1 Mesa de mistura digital ( Mat. da companhia )
2 Microfone lapela
1 Microfone de mão emissor
1 Microfone Shure p/ voz
1 Clavinova c/ output stereo
1 Bateria ( Mat. da companhia )
1 Acordeão ( Mat. da companhia )

Bastidores:

4 camarins individuais ou 1 colectivo

Montagem:

10 horas

Staff necessário:

2 carregadores para carga e descarga
2 Técnicos de luz
Técnico de som
Técnico de palco

Cenografia Cena Negra Luz Som
1º turno - 4h Montagem Montagem Montagem Montagem
2º turno - 4h Afinação Afinação e Revisão da Programação
Afinação e Testes
3º turno - 4h Ensaio Geral Ensaio Geral

Notas:

Para iniciar a montagem o palco e a teia devem estar limpos e sem quaisquer equipamentos.
É utilizado um pequeno explosivo.

Duração do espectáculo: 75 minutos

Espectáculo para maiores de 12 anos

Menções obrigatórias em todo o material promocional do espectáculo:

Estrutura financiada por MC / DGA (com inserção de logotipos).
classificação etária: maiores de 12 anos

Críticas e Artigos

Entrevista a João Paulo Seara Cardoso por Sónia Esteban para a revista Elegy.

ler mais

Mostra internacional que começou na terça ao ar livre, sob o céu estrelado de Brasília, vai apresentar quase 30 espetáculos

...

Na mesma noite de abertura, no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, o grupo portu­guês Teatro de Marionetes do Porto apresentou Cabaret Molotov. No palco, o grupo reproduz com bonecos os números dos espetáculos de variedades e recria a atmosfera típica do comporta­mento de artistas populares: um certo tom de decadência, marca externa e mais visível de, uma gente boêmia, cuja nature za não combina com submissão às regras rígidas exigidas para fazer sucesso no showbusiness. Os melhores momentos desse espetáculo, dirigido por João Paulo Seara Cardoso, estão na reinvenção que os atores fazem de números clássicos ao tirar proveito das possibilidades das marionetes. Por exemplo, só  uma boneca cuja cabeça é uma cabaça, o tronco um graveto e os membros simples varetas manipuladas pelos atores, Edgard Fernandes, Sara Henriques e Sérgio Rolo, pode se dar ao luxo de fazer coreografia com a cabeça sendo literalmente jogada dè lá para cá. Claro que só funciona porque o grupo consegue, mais do que simplesmente ‘manipular’, criar uma poética feita de dança numa hora, malabarismo e competição em outra.

Beth Néspoli
in "O Estado S. Paulo",   29 de Agosto de 2008

Entre angústias e diversões

...

Dono de pesquisa que o transformou em referência no género dos bonecos, o Teatro de Marionetes do Porto faz de Cabaret Molotov um pot-pourri de técnicas e pesquisa de lingua­gens. É tão impressionante a va­riedade de bonecos quanto são as técnicas de manipulação que exigem dos atores mais do que habilidade manual. Em cena, eles cantam, dançam e pas­seiam do clown ao grotesco, nu­ma montagem ambientada em autêntico clima de cabaré, com direito a canções brechtianas executadas ao vivo pela múlti­pla e talentosa Sbirley Resende. Humor e precisão levam a plateia ao suspiro dramático tão necessário ao circo-teatro. Dis­posto em dramaturgia circular e sem conexão, Cabaret molotov ganha potência no cuidado in­terno com o desenvolvimento de cada número, apesar de fal­tar costura narrativa entre os quadros. Um dos mais simples e poéticos, "o da vaquinha que faz mu", acompanha o espectador para além do teatro.

Sérgio Maggio
in "Correio Braziliense",   29 de Agosto de 2008

Poesía, circo y cabaret

Aveces resulta perentorio no dejarse deslum­brar por los grandes tas­cos y ei atronador sonido de las fanfarrias, y dirigir nuestra atención hacia las pequenas cosas. Solo así, pensando que existe vi­da más allá de los grandes y suntuosos espectáculos, podremos tener la fortuna de encontrarnos, de vez en cuando, con al-gún pequeno tesoro.

Esto es lo que sucede con la compañia portuguesa Teatro De Marionetas Do Porto, que estos dias presenta en el Teatro del Mercado su espectáculo "Caba­ret Molotov", a cuyo juego el pú­blico tardo en entrar, pêro que, al final, terminó entregándose por completo.

A lo largo de sus veinte años de existencia, Teatro De Mario­netas do Porto ha traba jado en una doble vertiente. De un lado, Ia recuperación de antiguas for­mas tradicionales de teatro de títeres. Del otro, la búsqueda de la contemporaneidad del teatro de marionetas, experimentando nuevas formas de manipulación y caminos de cncuentro con otras disciplinas artísticas, como el circo, la danza o la música.

"Cabaret Molotov" convierte en realidad escénica esa filoso­fia, para recrear un universo poético, melancólico en ocasio­nes, por el que desfilan coristas, bailarinas, osos ciclistas, clowns, acróbatas, y que sirve de escenario para el amor de Vladimir por la trapecísta Matrioska. La puesta en escena, partiendo del tradi­cional teatro musical con mario­netas, acomoda la representación sobre un excelente ritmo, cuida la belleza visual, mantiene viva la capacídad de sorprender, convierte el movimiento y las transiciones en un imaginativo ejercicio de precisión, y hace ga­la de un rico y original repertó­rio de recursos teatrales y de técnicas de manipulación.

Un subresaliente trabajo actoral y de manipulación, con una gran carga de corporalidad y exigencia física, hace palpable y visible el inteligente juego de planos que plantea la puesta en escena. De un circo en miniatu­ra pasamos a otro, éste en tamaño real. Observamos la integración orgánica entre el actor y el títere, la fusión de la actriz con el muñeco en un solo elemento o cómo la actriz misma se con­vierte en marioneta.

"Cabaret Molotov" es uno de esos espectáculos que no debería perderse todo aquél que piense que el arte sólo puede florecer con el movimiento, en la búsqueda respetuosa y riguro­sa de nuevas formas de expresión, en el riesgo, en eí mestizaje de disciplinas y lenguajes artísti­cos, y en la llamada a Ia emoción y Ias sensaciones desde la cerca­nía y el calor humano? Y qué es todo esto, sino Teatro?

Joaquín Melguizo
in "Heraldo de Aragon",   22 Junho de 2008

Ciudad Rodrigo se hace mayor

Finalmente. Las Marionetas de Oporto consiguieron con "Cabaret Molotov' arrancar una de Ias mayores ovaciones de Ia feria, al tiempo que nos mostraban el trabajo de más bella factura y sentido dramático.

in "La Teatral",  Outubro - Dezembro 2007

Camarrrada Público

Teatro de Marionetas de Porto presentó un grandísimo espectáculo: el antes mencionado Cabaret Molotov, en donde se conjugan varias bondades: Ia sencillez, Ia imaginación, el talento. Ia calidad interpretativa, el gusto, Ias buenas ideas, el humor ingenuo o el bululú borde.

Munecos, objetos, actores, bailarines, músicos, todo en pleno funcionamiento para contar Ia historia de un viejo cabaret en donde el presentador, primero un títere, después un actor, va renegando en ruso del vodka y va enseñando sus artistas, que van desgranado número a núme­ro sensibilidad, belleza, humor y emociones, logrando, un buenísimo espectáculo para todos los públicos, todas Ias circunstancias, todos los espacios. Bueno en sus intenciones, excelente en su estética, magnífico en su capacidad comunicativa, inteli­gente en sus planteamientos, sensible en sus músicas. Un espectáculo total, de los "camarrradas artistas" portugueses. Nos duelen todavia Ias manos de aplaudir.

Carlos Gil Zamora
in "Artez",  Setembro 2007

Um teatro poético e popular

Numa entrevista publicada no 4.° número da Sinais de cena, João Paulo Seara Cardoso partilhava uma das mais centrais premissas de muitos dos espectáculos do Teatro de Marionetas do Porto, a companhia que há largos anos dirige e que é um dos casos de maior felicidade criativa da nossa paisagem teatral contemporânea:

A nossa forma de fazer teatro assenta fundamentalmente na ideia de expor aos olhos do público a marioneta e o actor em relação íntima com os outros elementos cénicos, e explorar a dialéctica que daí advém. Neste contexto seria altamente restritivo usar só as marionetas, porque a marioneta não pode existir teatralmente sem o actor, elemento essencial da teatralidade. E o que é belo e ao mesmo tempo brutal nisto tudo é o confronto entre os actores e as marionetas: tanto um actor que manipula uma marioneta, como um actor que contracena com uma marioneta ou como os actores que vivem no mesmo universo, quase onírico, das marionetas. É todo este jogo, muito sedutor, toda esta dialéctica, de vida e de morte, de existência efémera, que pode provocar um estado especial em quem assiste a um espectáculo. (Cardoso 2005: 61-62).

Esta síntese exacta, então esboçada para recuperar o conjunto de processos cénicos que vinham orientando o percurso daquela companhia, serve ainda para caracterizar um dos mais recentes e mais conseguidos espectáculos de João Paulo Seara Cardoso. Apresentado como o resultado de um continuo "trabalho de experimentação", Cabaret Molotov leva um pouco mais longe o assumido investimento na manipulação à vista, isto é, na exploração performativa da indissociável articulação entre o intérprete e a marioneta ou, como o criador prefere, o "objecto cinético" - expressão mais justa, na realidade, para designar a multiplicidade de objectos animados pelos manipuladores, desde o boneco mais antropomórfico até à simples bola vermelha ou ao mais elementar bocado de madeira, sem qualquer expressão antes daquela que lhe emprestarão o corpo e a voz dos actores.

O criador cruza neste seu espectáculo a linguagem das marionetas com o imaginário e alguns dos recursos do circo, do cabaré e do music-hall, tirando o máximo partido da maleabilidade dessas formas populares de teatro. Historicamente anteriores à sistematização teórica e às experiências concretas de um "teatro popular" de ambições democráticas, proletárias e politicamente progressistas, estas tradições performativas tinham tradicionalmente o entretenimento como ambição dominante e caracterizavam-se por uma ostensiva despretensão artística e intelectual. Tal facto não impediu que tivessem servido, e continuem a servir, de estímulo para as pesquisas artísticas de alguns dos mais ousados criadores teatrais contemporâneos, que nelas vislumbraram um enorme potencial transgressivo e uma peculiar permeabilidade às mais variadas operações de adaptação, reinterpretação e reconfiguração cénica (cf. Schechter 2003).

Dado o manifesto interesse de João Paulo Seara Cardoso pelo cruzamento de disciplinas ou universos artísticos e pela exploração das suas mais imprevistas fertilizações, não deverá surpreender esta convocação do circo e do cabaré. A estratégia surge, apoiada numa forte presença musical, que se traduz na utilização de uma vasta panóplia de instrumentos, tais como o piano, a bateria ou o acordeão. Essa ampla dominância da música fica, aliás, claramente enunciada desde a entrada dos espectadores no espaço de representação, através da presentificação quase transparente de muitos dos recursos com que se realiza o espectáculo: os abundantes instrumentos musicais surgem concentrados sobre uma pequena plataforma, colocada à direita, na qual se instalará a instrumentista; ao centro, mais ao fundo, uma cortina vermelha ou pano de boca, apoiado numa estrutura metálica, sugere a possibilidade de multiplicação das áreas de jogo; de um lado e do outro do espaço de representação, diversos cabides e outros adereços completam a paisagem de um espectáculo cuja magia resultará da vida emprestada pêlos intérpretes aos objectos e às marionetas inicialmente inertes.

Apoiando-se na lógica de funcionamento do espectáculo de variedades, comum tanto ao circo como ao cabaré, Cabaret Molotov organiza-se em quadros, que se sucedem quase sempre interligados através das mais variadas soluções de continuidade. Depois de uma espécie de prólogo circense, em que um homem-bala é disparado de um canhão contra as cortinas, o primeiro quadro surge dominado pela figura, imediatamente cativante, de Vladimir, uma marioneta de pesado sobretudo castanho, a que o seu principal manipulador empresta um reconhecível, mas globalmente incompreensível, linguarejar russo. Estabelecido o diálogo de Vladimir com a trapezista Matrioska, representada por uma mais pequena marioneta com os braços agarrados a um trapézio, assiste-se à enunciação daquela que será a principal marca deste espectáculo e que o seu encenador apresenta como uma "poética do voo": liberto das leis da gravidade pela acção dos seus manipuladores, Vladimir facilmente descola do solo, entregando-se a uma liberdade de movimentos mais ilimitada do que a experimentada pela sua amada Matrioska. O mesmo, aliás, acontecerá com a generalidade dos mais variados "objectos cinéticos" convocados e manipulados durante todo o espectáculo, numa espécie de repetida coreografia aérea que reforça o delírio imaginativo em que aposta CabaretMolotov.

Vladimir regressará, mais tarde, embora desta vez seja a sua voz que se ouve primeiro, no escuro, chamando por Kristina - aparentemente o nome emprestado à intérprete musical de farto cabelo ruivo e saia de muitas camadas de tutu vermelho. Vladimir prolonga a sua ambição aérea, saltando agora numa cama elástica. Por mais de uma vez, cai, tosse, e sobre o solo, no meio do seu contínuo linguarejar, ouve-se algo que parece querer significar "maldita vodka". Alguém haverá de o pendurar num cabide, facto que não o impedirá de continuar a falar, acompanhando a intérprete musical numa melancólica canção francesa. No final, caberá também a Vladimir - uma vez recuperado do seu cabide, mas agora duplicado na figura de corpo inteiro do seu manipulador, equipado com um megafone e um candelabro - encerrar o espectáculo. Numa eloquente figuração da já referida dialéctica entre a marioneta e o seu manipulador, este último Vladimir dará de beber ao primeiro, beijá-lo-á, para depois voltar a fazê-lo desaparecer de cena.

Entre estes três momentos, sucedem-se outros números, nos quais se misturam - como no circo, como no cabaré, mas também como num deliberado, embora não necessariamente explosivo, cocktail cénico - as mais diversas criaturas e processos de lhes dar vida: três cabeças de caniche, que não são mais do que marionetas de mão manipuladas pêlos três intérpretes vestidos com fatos de palhaços ricos, interpretam Mack the knife, de Kurt Weill e Bertolt Brecht, ao som de diferentes latidos; três narizes redondos, ou três bolas vermelhas, são animados pelo mesmo conjunto de intérpretes, apostados agora num jogo virtuosístico de sincronização de movimentos e de variações sonoras; dois pequenos bonecos mais antropomórficos, manipulados por uma vara na cabeça, entregam-se a um bailado aéreo sobre uma comprida mesa saída de detrás da cortina; uma bailarina - quase magicamente criada em frente aos olhos dos espectadores, através da imprevista articulação de seis inexpressivos bocados de madeira - executa, sobre a mesma mesa, uma outra espécie de bailado, mais clássico, mas de incomparável elasticidade, desatenta ao perigo constituído pelas chamas de um candelabro colocado na proximidade da sua área de actuação; três pares de sapatos, ainda sobre a mesma mesa, manipulados por intérpretes de marcados chapéus na cabeça, interpretam um breve episódio de ciúme e desafio, ao som de um tango dos Gotan Project; um mais delirante homem-coelho reclama, num linguarejar italiano mais reconhecível que o russo de Vladimir, um beijo da mulher-coelha que retira da sua mala branca; três marionetas de corpo inteiro executam uma frenética valsa de salão, servida pelos movimentos rápidos, circulares e aéreos dos seus pares humanos; dois palhaços ricos entregam-se às mais cruéis e divertidas tropelias; uma rapariga de meias, ligas brancas e tiras de cor vermelha é manipulada, qual marioneta, por outro dos intérpretes. Mas ainda há o número executado pela actriz que traz consigo, como se fosse uma extensão do seu corpo, um pequeno teatrinho, de cujo palco vão desaparecendo uma casa e o seu habitante, um cão e uma vaca, à medida que um avião vai largando bombas sobre aquele minúsculo cenário; animado por um exigente jogo de manipulação e sonorização, este quadro introduz no espectáculo uma nota de mais tópica e perturbadora actualidade.

Cabaret Molotov é uma fascinante proposta cénica, dominada por jogos de alternância de escalas entre os intérpretes e os objectos e servida por demonstrações aparentemente inesgotáveis de humor e de imaginação. A extrema coerência do espectáculo só parece vacilar quando a opção figurativa cede a uma forma mais literal de poesia ou a uma espécie de inesperado mimetismo, uma alternativa aparentemente inaceitável neste universo onírico - como acontece num dos números finais, quando, depois de lhe terem despejado uma garrafa de champanhe sobre o corpo, uma mulher de lingerie preta recita um poema em espanhol. Se, como no circo ou nas variedades, a sequência de cada um destes números nem sempre é servida por uma mais elaborada lógica de motivação, tal fragilidade dramatúrgica é largamente compensada pelo imparável carrossel de figuras, pela hábil alternância de protagonismo entre a marioneta e os seus manipuladores e, sobretudo, pela contagiante invenção que acompanha a arrebatadora e encantatória execução de todos esses quadros. Edgard Fernandes, Sara Henriques e Sérgio Rolo demonstram ser, simultaneamente, actores, bailarinos, cantores e manipuladores, revelando uma versatilidade e uma energia interpretativas só possíveis pela consequência do trabalho desenvolvido no âmbito de uma tão coerente estética cénica. A instrumentista Shirley Resende completa o quarteto de magníficos intérpretes de um espectáculo que recupera fórmulas e convenções de comprovado apelo comunicativo para as injectar com um renovado fôlego poético e imaginativo.

Paulo Eduardo Carvalho
in "Sinais de Cena", nº7, Junho de 2007

O circo de pulgas e o cabaré sublime

Se pensava que ao entrar num cabaré de apelido Molotov ia poder fumar à vontade e beber álcool, desengane-se. Não se encontrou tabaco nem cocktails fumegantes, nem pessoas a bailar por entre as mesas, no intervalo das canções e dos números de variedades deste Cabaret Molotov. Obviamente, o propósito do Teatro de Marionetas do Porto é mais do que entreter a plateia. Instalado no Convento de São Bento da Vitória está um cabaré, sim, mas no palco, para ser visto com toda a atenção. Na verdade, mais do que um cabaré fictício, o espectáculo é um cocktail cénico que tem de tudo um pouco: marionetas, dança, teatro, circo, music-hall, juntos numa reunião familiar em que os parentes próximos e afastados viessem das mais longínquas pátrias e tradições das artes cénicas, apresentando os seus números e falando versões macarrónicas de russo, italiano, alemão e espanhol, numa profusão de actos e línguas de palhaço. Há coristas, trapezistas, acrobatas, homens-bala e funâmbulos, ursos e coelhinhas. Esta grande família de artistas é criada por actores e marionetas alternadamente, num circo em miniatura que muda para a escala real sempre que o olhar do espectador é focado nos manipuladores, e regressa a um mundo de sugestão, povoado de profissionais do espectáculo, causado pela manipulação dos objectos. Todos se encontram num lugar de lembrança popular: a área de jogo encimada pelo pano de boca que evoca tanto a arena de circo como os tablados mais escusos. De repente, é como se este fosse o espectáculo ideal para encerrar mais um ano de teatro no Porto, fazendo uma revista sublime de todos os encantamentos teatrais da cidade. Os manipuladores expõem os truques todos, como se na apresentação de um circo de pulgas o amestrador avisasse previamente que não existe pulga alguma, e ao espectador coubesse ver o invisível e fazer vista grossa ao que entra pelos olhos dentro. O público desfia em conjunto com os actores o rol de memórias de atracções de cena que, por magia, ganham corpo. Número após número, a manipulação à vista dos objectos inanimados mostra a relação íntima mantida pelos marionetistas, actores e personagens, com os bonecos e máscaras que se escolhem para efígies e totens.

As marionetas somos nós, parece, manietados pela projecção das figuras que nos calham. As referências escondidas ao cinema e as piscadelas de olho ao público mais cúmplice coabitam com o humor físico e farsesco. A expressão dos universos dos criadores e intérpretes parece ressoar e repercutir no imaginário do espectador. O espectáculo é tanto sobre o circo e o cabaret, e sobre essas memórias, como sobre o romance de Vladimir e Matrioska, como sobre o próprio acto da manipulação, numa síntese bem feita entre arte e entretimento. Manipulando ícones do nosso imaginário, o Cabaret Molotov reproduz e materializa os sonhos pessoais dos autores, partilhando-os com o espectador mais ou menos anónimo. Nos claustros de um velho convento, convertido em sala de concerto, a memória do teatro encerra com um último olhar sobre o espectáculo da decadência de fim de noite no cabaré; e a manipulação dos objectos, representando continuamente a ilusão da arte e o fracasso do quotidiano, parece perguntar, mesmo quando nos rimos: o que fiz do meu sonho?

Jorge Louraço Figueira
in "Público",  23 de Dezembro 2006

Vladimir ama Matrioska no cabaré do Teatro de Marionetas do Porto

Os caniches cantam Mack the Knife no original alemão de Brecht e Weill, os sapatos de salto alto dan­çam um tango dos Gotan Project, o coelho guarda a noiva na mala e ele, Vladimir Molotov, bebe vodka, por ele e por Matrioska. Poderia ser tudo cintilante e maravilhoso no Cabaret Molotov que o Teatro de Marionetas do Porto monta, a partir desta noite, no Convento de S. Bento da Vitória. Mas Vladimir ama Matrioska, a trapezista, e ela já não é deste mundo - porque este mundo, o mundo dos grandes circos soviéticos e dos míticos cabarés berlinenses, também não.



Apesar de replicar a estrutura de um espectáculo de circo, na sua divi­são em números, há vida em Cabaret Molotov para além das variedades que os actores Edgard Fernandes , Sara Henriques e Sérgio Rolo e a instrumentista Shirley Resende executam nos claustros do conven­to. …

Inês Nadais
in "Público",   7 Dezembro 2006

E se o convento se transformasse num cabaret?

O aviso no início do es­pectáculo é bem explí­cito: "Tapem os ouvi­dos!". Todavia, quem in­sistir em contrariar o apelo dará por si num inebriante cabaret onde os sentidos podem vaguear ao ritmo do tango. O segredo é não fa­zer a mente acompanhar com nexo a ritmada sucessão de números -e são muitos -, mas sim degustar os seus efeitos. Tudo acontece em "Cabaret Molotov", …



"Cabaret Molotov" chegará a surpreender o público com o seu encontro entre formas de expres­são pouco convencionais, "ape­nas com alguns elementos que fossem reconhecidos como o ita­liano e o russo".

Depois, há todo um excelente trabalho em que os actores - Edgard Fernandes, Sara Henriques. e Sérgio Rolo - intercalam a in­terpretação com a manipulação de marionetas….



"Cabaret Molotov" torna-se ainda num espectáculo maior por ser acompanhado pela ins­trumentista Shirley Resende , que vagueia por Gotan Project, Ene Satie, Robert Miny e Yann Tiersen.

O resto, o que não é perceptível à vista desarmada, deve ficar a de­ver-se à mística do espaço "gran­de e espiritual". …

Marta Neves
in "Jornal de Notícias",   7 Dezembro 2006

As marionetas  também vão ao circo

…E a época na­talícia acaba por adequar-se a um espectáculo que tem poten­cial para agradar a um público dos oito aos 80 anos e que, ao mesmo tempo, representa uma visão alternativa do circo.

Cabaret Molotov organiza--se numa sequência de polaróides que se vão sobrepondo como números de circo, alter­nando entre ambiências circenses e de cabaré…



Para lá da força da expressividade das marionetas e dos actores, a quase ausência de linguagem verbal é uma das grandes apostas da peça, tornando-a acessível a pú­blicos diversificados.

João Pedro Barros,
in "Sol",   8 Dezembro 2006

Cabaré Seara Cardoso

É uma visita ao imaginário dos cabarés berlinenses dos anos 30 e dos grandes circos soviéticos, mas é sobretudo uma visita ao imaginário de João Paulo Seara Cardo­so, o director do Teatro de Marionetas do Porto (TMP). Cabaret Molotov, a nova pro­dução da companhia, é uma mistura assim explosiva: um cruzamento entre coisas que nunca se tinham cruzado no historial do TMP mas que se atravessam há décadas na cabeça de Seara Cardoso.

Inês Nadais
in "Público",   12 Dezembro 2006

Das trincheiras ao cabaret

Na 7a edição do FIMFA Lx - Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas, a Tarumba - Teatro de Marionetas convida o público a descobrir a marioneta do futuro com 15 companhias profissionais provenientes da Holanda, Dinamarca, França, Brasil, Rússia, Espanha, Reino Unido e Portugal. Sendo privilegiada a transversalidade artística, destacam-se os projectos experimentais que fundem as marionetas e o circo, a dança, a música contemporânea, as artes plásticas e as novas tecnologias.

Na sala do Teatro Maria Matos, a companhia holandesa Hotel Modern abre o festival com The Great War, um espectáculo impressionante que transporta o espectador para as trincheiras da I Guerra Mundial. Quatro performers concentram uma actividade frenética em redor de um décor de cinema em miniatura, produzindo sons, manipulando soldados e artilharia, filmando e, alternadamente, lendo excertos de cartas de um soldado francês, Prosper, urn desconhecido que viveu, talvez os seus últimos dias, rodeado de chamas e cadáveres.

Descrito como "filme de animação em directo", o espectáculo desenvolve-se entre a violência das imagens projectadas num enorme ecrã e a simplicidade naïve dos objectos manipulados. Situado entre as duas dimensões, o espectador assiste à transformação dos tanques de brincar em máquinas de guerra, vê um bico de gás a destruir uma cidade ou duas botas manipuladas por dedos que mostram o caminhar penoso do soldado enterrado em lama, solidão e medo. O virtuosismo dos movimentos de câmara, que introduz o espectador no campo de batalha seguindo o ponto de vista dos soldados, não impede a aparência de imagens poéticas, enquanto a insistência nos detalhes dissolve o hiper-realismo para revelar composições abstractas. O horror e a beleza unem-se de forma paradoxal neste espectáculo onde o lúdico fabrica o pesadelo.

Depois dos cenários de guerra, o palco do Maria Matos recebe o Teatro de Marionetas do Porto e Cabaret Molotov. Com imaginação e engenho, João Paulo Seara Cardoso reinventa o teatro de marioneta no ambiente sombrio de um cabaret onde a dança e o circo se cruzam em coreografias desvairadas, nostálgicas, mas sempre atravessadas por uma leve ironia. Marionetas de luva, de vara e de tamanho humano ganham vida nas mãos de três performers ( Edgard Fernandes , Sara Henriques, Sérgio Rolo ), que criam os mais alucinantes números de music-hall, alternando a irrealidade poética, o nonsense e o grotesco.

Acompanhados pela música de uma instrumentista extraordinária ( Shirley Resende ), cujos volumosos cabelos espetados se erguem em direcção ao tecto, os trapezistas voam em câmara lenta, há caniches a ladrar o refrão de Mack the knifei; bailarinas inumanas rodopiam pelo ar ao som de valsas, uma for faz equilibrismo suspensa entre duas bocas. Para ver e ouvir com um sorriso nos lábios.
A fusão de técnicas e linguagens está bem patente nestes dois espectáculos, que integram um festival capaz de estabelecer confrontos no interior da diversidade, impulsionando, assim, a liberdade artística na criação contemporânea.

Rita Martins
in "Público",   7 Junho 2007

Cabaret Molotov
Uma Vida Aérea Intermitente Une a Marioneta e o Trapezista

Começa por uma explosão; e é de uma explosão do que trata esta obra. Uma explosão de bom humor, de sátira, de música, de “nonsense” com sentido, de boa arte em geral. É algo a que João Pau­lo Seara Cardoso - director do Teatro de Marionetas do Porto - nos tem habitua­do desde sempre (não nos podemos es­quecer do magnífico “TrêsPorquinhos”!). Desde espectáculos para miúdos e graú­dos, sempre deixando um matiz picante no paladar. E disso também precisamos! Especialmente numa época tão difícil para as artes cénicas no Porto, esta com­panhia demonstra que esta cidade sabe fazer bom teatro, para toda a classe de públicos e que vale a pena apostar nele.

E como vivemos numa” época tão difícil a nível político, eis que reaparece o Cabaret com forma de circo: sátira sobre a guerra, erotismo em toda a parte, muita vodka (“cur­va vodka”, não é Vladimir?), dança e boa música (Gotan Project, Eric Satie, Kurt Weil, Robert Miny e Yann Tirsen, que mais podemos pedir?). Com marionetas e intérpre­tes que se fundem - frequentemente não sabemos onde é que acaba a marioneta e começa o intérprete - manipu­lado magistralmente. Momentos inesquecíveis: paus que se transformam numa linda bailarina; um teatro dentro do teatro no qual observamos a guerra da maneira mais inocente possível, cães cantando, uma luta entre sapatos, dois clones competindo, palhaços a brincarem com os seus narizes... E não queria deixar de comentar o grande trabalho de Shirley Resende , uma mulher-orquestra que nos oferece alguns dos momentos mais doces do espec­táculo. Também aproveito para destacar o apresentador, Vladimir, um bêbado que resulta delirante, assim como a genial ideia de inventar e adaptar línguas que terminam percebendo-se, já que a única linguagem que tem sentido é a do poema “Me gusta cuando callas” de Pablo Neruda. Tudo o conjunto, sem tirar nem pôr, resulta num espectáculo que dura pouco mais de uma hora, que nunca nos aborrece e que nos mantém atentos do princípio ao fim, deixando-nos com vontade de mais quando a “cortina” (embora aqui não existam cortinas) desce.

O local é impressionante. Estamos a falar do incrível claustro do Convento S. Bento da Vitória do Porto. Um sí­tio que já nos ofereceu vários concertos da Orquestra Na­cional do Porto - a sua sede antes de ser transferida para a Casa da Música - e que além de oferecer uma acústica razoável, este edifício é de cortar a respiração. As mario­netas criadas por Erika Takeda, estão muito bem conse­guidas, assim como os figurinos, da mão de Cláudia Ri­beiro. O desenho de luz, de António Real ( João Paulo Seara Cardoso ) e de Rui Pedro Rodrigues; adapta-se a todas as necessidades dramatúrgicas, resultando sóbrio e eficaz. Os geniais intérpretes desta peça são: Edgard Fernandes , Sara Henriques e Sérgio Rolo.

de Sonia Esteban
in Revista Elegy, 2007

na Blogosfera

"O circo e as marionetas na poética do voo, as marionetas não se sujeitam às leis da gravidade, os artistas de circo desafiam-na. Cabaret Molotov é um espectáculo que resulta de um trabalho de experimentação em que tentamos levar o nosso modo de fazer teatro ao encontro de uma certa poética associada ao circo.
Criação a partir do teatro musical com marionetas, de grande expressão na Europa em meados do século passado. Cabaré melancólico inspirado nas nossas memórias mas iluminado pela visão contemporânea do teatro e do mundo.

Aqui, deambulam coristas apaixonadas, trapezistas, clowns, músicos dos sete instrumentos, homens-coelho, homens-bala, ursos ciclistas, caniches cantores, dançarinos e bailarinas ao som de valsas, tangos, polkas, tarantelas e velhas canções de Kurt Weil. Cabaret Molotov terá existido ou não passou de um lugar inventado por Vladimir, o Russo, cenário do seu amor à trapezista Matrioska?

¬ Desde 1988, data da sua formação, o Teatro de Marionetas do Porto produziu e apresentou 23 espectáculos. Todos experiências diversas ao nível da contemporaneidade do Teatro de Marionetas, procurando encontrar novas formas de concepção e manipulação de marionetas e novos caminhos no que diz respeito à interpretação e ao relacionamento com outras áreas de criação, como a dança, as artes plásticas e a música.

O TMP, a mais internacional e uma das melhores companhias de teatro de marionetas de Portugal, está pela terceira vez no FITCM."

Acabei de assistir a este espectáculo. Excelente. Também, nunca vi nada feito pelo João Paulo Seara Cardoso que não gostasse. Lembro-me do seu rigor profissional, quando há mais de 20 anos fiz, com ele, um pequeno Curso de Teatro de Sombras. Qualquer coisa, por mais simples que fosse, ganhava magia nas suas mãos. Hoje tem excelentes actores no Teatro de Marionetas do Porto, que dão corpo e alma ao seu trabalho, sempre criativo e rigoroso.

O público aplaudiu com convicção. Foram muitas as palmas. A sala estava cheia.

in http://aluaflutua.blogspot.com, 6 de Outubro de 2007

Cabaret Molotov: Fui assistir ao segundo round da peça encenada por João Paulo Seara Cardoso para o Teatro de Marionetas do Porto, no Convento de S. Bento da Vitória. As cadeiras instaladas num salão improvisado (e o mais inadequado possível para aquele tipo de espectáculo) estavam todas ocupadas e o desempenho dos actores é inatacável. Mas no fim, quando vieram receber os aplausos, imensos e justos, foram incapazes de esboçar o mais ténue sorriso. Pareciam quase desconfortáveis. Fiquei a pensar no que aquela súbita timidez representa. Fiquei a pensar no que sentem actores que insistem em actuar numa cidade que rejeita a esmagadora maioria das manifestações culturais. Pensei que se Rui Rio por uma vez assistisse a uma peça de teatro talvez pudesse mudar a sua estratégia. E fiquei a pensar onde estarão as salas alternativas que diz ter para o teatro; essas que ele diz que vai lá “pega e paga”.

in http://coriscos.blogspot.com/2007_01_07_archive.html

Ontem lá fomos assistir a mais uma peça do Teatro de Marionetas do Porto. Cabaret Molotov é exemplo do bom trabalho desenvolvido por esta companhia de teatro portuense. Momentos mágicos em que actores se transformam em marionetas e vice-versa. Para ver até 23 de dezembro no Convento de São Bento da Vitória. Não perder!

in http://beijos-de-algodao.blogspot.com/2006/12/cabaret-molotov.html

Nos poucos espectáculos do Teatro de Marionetas do Porto a que tive a oportunidade de assistir, senti sempre que João Paulo Seara Cardoso tinha profunda consciência daquilo que estava a encenar. Ainda por cima, é um verdadeiro homem de teatro: profundamente conhecedor, agudamente sensível, e actor-em-estado-de-prazer.

Na peça "Cabaret Molotov", cuja carreira terminou ontem no Convento de S. Bento da Vitória, pareceu-me ter descoberto qual a diferença entre o circo tradicional (de que nunca gostei) e o bom teatro. É que no circo, todos os esforços são conduzidos no sentido da perícia: é o trapezista que pode cair, o domador que pode ser degolado, o malabarista que pode ser traído pela gravidade, etc. Mas quando esse espectáculo é apropriado pelo teatro, como ninguém está interessado num virtuosismo que se basta a si mesmo, o que aí se trabalha é a POÉTICA circense (aquilo que o próprio circo insiste em banalizar). A ameaça do teatro é sensual e metafísica: não é um desporto.

A peça balança, então, entre uma poética da ausência de gravidade (o circo) e uma estética da terra (o cabaret). Preferi, talvez, os números associados à primeira estratégia. Mas aquele que me pareceu o momento alto de todo o espectáculo foi a evocação irónica e angustiada do "Youkali" de Kurt Weil: o paraíso é um teatrinho minimal-repetitivo. E tão frágil...

in http://cabodaboatormenta.blogspot.com/2007/01/cocktail.html

Realmente um excelente espectáculo a não perder, acreditem, é mesmo bom. Parabéns ao Teatro de Marionetas do Porto e à qualidade do trabalho que realizam.

in BETA.BLOGGER

Bem, isto é um pequeno update só para vir incomodar e falar de um espectáculo que vi ontem, de seu nome Cabaret Molotov. É um espectáculo de marionetas, mas desengana-se quem acha que vai ver um pequeno palco com marionetas pequeninas aos pulos (como aquela mítica cena em Música no Coração).

Retrata uma espécie de circo, com os seus momentos alegres, dramáticos ou simplesmente belos. A música é um mix delicioso de Yann Tirsen, Goten Project, Kurt Weil e por aí fora.

Além de tudo isto, o espaço é no belíssimo Convento de S.Bento (Praça da cordoaria, atrás da cadeia da rei acção), que para além da beleza estética tem a particularidade de um chão aquecido «3. Enfim, palavras para quê?! Apressem-se contudo que termina já no próximo dia 10, visto ser uma reposição.

Os espectáculos são sempre às 21:30 e acabam pelas 23h.

in BLOG GRILINHO

Cabaret Molotov

Do Teatro de Marionetas do Porto, encenação de João Paulo Seara Cardoso, no Convento de São Bento da Vitória.

Lindo. Mágico. Divertido.

No final apenas consegui dizer ao representante da companhia: "Quero vir aqui todos os Domingos para animar a minha semana!"

Está em exibição até ao dia 23 de Dezembro. Vão ver. MESMO!

in http://oscaracoisdamarina.blogspot.com/

Durante o fim-de-semana que passei na cidade do Porto, e do qual falarei mais tarde, tive o prazer de assistir a mais um espectáculo do Teatro de Marionetas do Porto, Cabaret Molotov, nos claustros do Convento de São Bento da Vitória. A noite estava horrível, a chuva não parava e quase nos atrasou a chegada ao espectáculo. O incómodo causado pela chuva que nos tinha encharcado foi imediatamente ultrapassado ao entrar nos claustros, que foram cobertos e arranjados, e ao sentirmos o calor que lá estava dentro. Muito agradável o espaço. O espectáculo veio mais uma vez confirmar a qualidade desta companhia de teatro. Retrata um espectáculo de circo, onde cada cena consegue ser mais hilariante que a anterior. As personagens "falam" várias línguas sem sentido, onde se pode reconhecer sonoridades e palavras soltas de Russo, Italiano e Francês. Fazendo parte integrante do espectáculo existe uma personagem responsável pela banda sonora, e ao vivo podemos vê-la a tocar vários instrumentos e a cantar... muito bem, por sinal. A expressão corporal dada às marionetas que acompanham os actores, ou vice-versa, continuam fantásticas de tão expressivas. Passei quase uma hora a rir com gosto e aconselho vivamente. Muuuu, Muuuu. (código perceptível depois de visto o espectáculo).

in http://podeserfacil.blogspot.com/

Vi a última peça do Teatro de Marionetas do Porto no seu último dia de exibição, na noite fria de 23 de Dezembro. O nome da peça: "Cabaret Molotov".

Nessa noite, de regresso a casa, já vinha a germinar o rascunho de um 'post1 acerca do TMP, no qual expressasse a minha opinião sobre aquela peça e também acerca da companhia. Por alguns factos que, entretanto sucederam no meu dia-a-dia, apenas hoje consegui pôr a ideia em execução.

Começo, então, pelo Teatro. Sou um espectador mais ou menos assíduo dos trabalhos do TMP, penso que a primeira peça que vi na Rua de Belomonte já lá vai mais de uma dúzia de anos. Assisti a mais de uma dezena de peças, quer naquele espaço, quer no auditório do Ballet Teatro. Houve algumas que me entusiasmaram, muitas outras que gostei e poucas houve que não apreciei. Posso referir algumas que coloco nestes dois primeiros grupos: 'Óscar', 'A cor do céu', 'O aprendiz de feiticeiro', 'Polegarzinho', 'História da Praia Grande', 'Como um carrocei à volta do sol', etc..

Mas houve três peças que me encheram as 'medidas* ao longo destes anos , eis o meu pódio das 'vencedoras1: Vai no Batalha', 'Miséria' e 'Os encantos de Medeia'.

O TMP tem mudado vários dos seus membros ao longo do tempo, como é normal num projecto que já tem vários anos. Dos que já não fazem parte da companhia menciono os nomes dos que ainda me lembro: o Mário Moutinho, a Marta Nunes, o Rui Oliveira e o Igor Gandra. Mas, com estes ou com os actuais, sempre senti que os trabalhos trazidos até ao público traduzem uma entrega séria e profissional de uma equipa ampla, que vai para além dos encenadores e dos actores, uma equipa que começa a trabalhar alguns meses antes da estreia, com os ensaios, com a feitura dos 'bonecos', com a procura dos adereços, etc.

E a quem desejar saber mais coisas acerca do TMP, aconselho uma visita à sua página, no seguinte endereço: http://www.marionetasdoporto.pt

E termino a falar do 'Cabaret Molotov'. Foi mais uma obra que gostei. Gostei do espectáculo em geral, gostei da encenação, gostei da interpretação dos 'bonecos1, gostei mais uma vez da 'ligação1 actor vs manuseador da marioneta, gostei da música, gostei do jogo de luzes e som. Mas há dois pormenores que não percebi: um, logo no início, foi o disparo do 'canhão humano* ter sido accionado pelo operador de som e luz, porquê? e o outro, quase no final, foi a entrada da instrumentista a tocar acordeão até ao centro da boca de cena, onde se deitou de costas e nessa posição continuou a tocar, também porquê? Mas isto não enublou o suficiente o gozo da peça e, portanto, ainda posso repetir: gostei!

Porque gostei, aqui quero dar os parabéns. Em primeiro lugar, e sem qualquer menção especial: parabéns ao João Paulo Seara Cardoso, pela encenação e pêlos cenários, parabéns ao Edgar Fernandes, à Sara Henriques e ao Sérgio Rolo pela ligação 'unha-e-carne' aos papéis dos 'bonecos' [apenas como exemplo, saliento: o 'coelhinho branco1, a 'dançarina de tango1 e o “kamarada Dimitri”] e parabéns a todos os restantes elementos do TMP. Finalmente, e aqui sim, quero deixar uma nota de distinção: parabéns à Shirley Resende, pela interpretação da música que tocou, quer ao piano, quer com o acordeão, quer ainda pelo bater dos bombos. Gostei, gostei e gostei! Já vi diversas peças em que a Shirley tocou, mas, creio, neste espectáculo deu um salto, um bom salto! Por isso, mais uma vez, parabéns!

in http://tretaseoutras.blogspot.com/

O dever de conhecer as marionetas do Porto
 
O dever e o prazer. Os artistas do Teatro de Marionetas do Porto foram à Guarda e arrancaram gargalhadas aos montes a um público que tão cedo não os esquecerá.
 
Não perdoo a mim mesmo ter esperado 51 anos para ver um trabalho do Teatro de Marionetas do Porto (TMP). Não sei há quantos anos existe, certamente há menos do que eu, mas mesmo assim só consigo compreender o tardio conhecimento pelo facto do teatro de marionetas nunca ter sido muito o meu género apesar de ter sido o primeiro género de teatro que vi.

Lembro-me da celebérrima companhia Teatro D. Roberto, de apenas um actor/manipulador, uma dúzia de títeres manipulados por dentro numa técnica básica de três dedos e palco de meio metro, sem cenários, que derramava talento e humor pelas praias do litoral centro. E guardo também gratas recordações dos Bonecos de Santo Aleixo (Centro Cultural de Évora, numa recriação de ancestral espectáculo profano do século XVIII, de raíz popular), do Teatro Negro de Praga, recentemente do Teatro Corsário de Valladolid (absolutamente imperdível, voltam cá brevemente e então avisarei), e pouco mais.
Confesso que desta vez seria mais uma ocasião para não ver o TMP não fosse um telefonema do director artístico do Teatro Municipal da Guarda a avisar-me para a quase obrigatoriedade de assistir ao espectáculo. «É que nem penses em perder isto, é mesmo muito bom e tenho a certeza que vais gostar imenso…» disse-me ele ao telemóvel na tarde do próprio dia do espectáculo já eu em Coimbra de fim-de-semana entre finos, tremoços e amigos na esplanada do Tropical.
Como tenho enorme consideração pelas suas opiniões e lhe devo imenso do que tenho aprendido nos últimos anos no que respeita a estas coisas das artes e da cultura (mais para o alternativo) tomei a mensagem como uma ordem, acabei o fino (acho que ainda bebi outro, já não me lembro bem…) e pus-me de novo a caminho da Guarda na companhia de dois amigos de mesa que entretanto convenci a fazerem-me companhia e que já estavam na mesa da esplanada há mais tempo do que eu e igualmente a beber finos.
Valeu a pena? Tudo vale a pena se a qualidade não é pequena. E neste caso era enorme. Um espectáculo de cabaret com todos os ingredientes de um espectáculo de cabaret e muito mais. Ele eram trapezistas em acrobacias irreais, palhaços absurdos de morrer a rir (e então depois de uns finos…), homens-bala verdadeiramente atirados de um verdadeiro canhão, coristas apaixonados, bailarinos surreais que dançavam e voavam pelo espaço ao som de todas as melodias, ursos-ciclistas, cães-cantores, um pérfido coelho humano (arrebatadora criação e notável trabalho de actor), música de Kurt Weil aqui e ali magnificamente executada por estrambólica corista de descomunal peruca laranja e Vladimir, o director da companhia, um espantoso boneco que falava uma imitação de russo com cirúrgicas palavras portuguesas para garantir a compreensão do discurso e que nos deixou a todos (espectadores) a dúvida da existência real do Teatro Molotov podendo tratar-se antes de um «local inventado para cenário do seu amor à Trapezista Matrioska».
A opção técnica passa pela exposição absoluta e assumida do corpo dos actores/manipuladores que assim se assumem igualmente como elemento cénico e estético utilizando mil e uma técnicas de manipulação dos bonecos (de tamanhos e géneros os mais diversos) num verdadeiro festival de know-how da matéria. Uma assombrosa demonstração de inteligência, arte e humor em ambiente surreal da responsabilidade artística de João Paulo Seara Cardoso, um nome que jamais esquecerei e de que procurarei ver tudo, até o apertar dos cordões dos sapatos.
No fim do espectáculo e perante a minha estupefacção (e dos meus amigos, já com sede de novo, a estupefacção dá sede nunca tinham reparado?) disse-me o Américo Rodrigues, director artístico da casa: «Então, eu não te disse? E se queres saber a minha opinião este nem é dos melhores espectáculos deles, têm bem melhor, um dia destes logo cá voltam…». Este meu amigo Américo não é pessoa de bluffs e embora me custe a crer fico então à espera do regresso do TMP.

in http://rascunho.iol.pt

Sábado 30 de junho, depois de um curso de dança performativa, que fazer à noite?? O Teatro de Marionetas do Porto, com a peça Cabaret Molotov, ia actuar a Espinho, porque não?? Porque sim... e ainda bem que sim.

Apesar de ter sido difícil lá chegar, o auditório onde iam actuar, era complicado, e as pessoas de Espinho, estavam com alguma dificuldade em explicar-se ou eu a entender-me, da rua 23, íamos para a 103, das 545, íamos para 365, da 4, para 10 e a rua 33, nada, nem sombra.
Mas eu e o meu amigo continuamos, insistimos e lá fomos encontrar, e ainda bem, porque valeu mesmo a pena.

Foi um momento mágico, saí de lá a voar como as marionetas e com partes do meu corpo a voar comigo, estava desconstruída.
Foi fantástico, os interpretes eram as marionetas, e deixavam de ser, eram dois corpos que se fundem num só, num misto de dança, música, cor, brilho, encanto é erótico.
Assistir ao Cabaret, é entrar num sonho, num misto de fantasia, dos cabarets de Berlim, com toques muito pessoais.
Viaja-se, divertimo-nos, pensamos, e entramos no nosso imaginário e no sonho deles.
A instrumentista é divinal, a conjugação das músicas são autênticos brilhos constantes, e de uma excelente qualidade quer a escolha, quer a interpretação.
Grande Sábado à noite, ainda percorre até hoje.
O meu amigo sentiu o mesmo...

Adorei, obrigada, parabéns.

in http://farolnoventodonorte.blogspot.com, 2 de Julho de 2007

© Teatro de Marionetas do Porto 2008