Há muitos anos (quase vinte) que vamos guardando religiosamente em caixotes etiquetados, organizados num armazém a que já alguém chamou de depósitos de sonhos, todos os objectos, marionetas, adereços e cenários das criações apresentadas. Até que, há algum tempo, encaramos a hipótese de fundar um museu que reunisse todo este precioso acervo.
Esta exposição não poderia, pois, ser mais oportuna. Constitui a primeira mostra pública de uma parte do depósito de sonhos do Teatro de Marionetas do Porto. E antecipa a abertura de Museu das Marionetas, prevista para 2008, ano em que se comemora os vinte anos de vida da companhia.
Cenas Suspensas constitui-se como um painel de memórias do percurso do Teatro de Marionetas do Porto ao longo do tempo, um conjunto dos lugares do espírito dos fazedores de cada espectáculo (criadores, intérpretes, produtores, técnicos, etc). E, naturalmente, uma memória a ser (re)vivida pelos muitos milhares de espectadores que sempre nos têm acompanhado.
Assim como a fotografia representa a suspensão do tempo da realidade, também esta exposição/instalação, que apresenta as marionetas e objectos cénicos no seu contexto teatral – o espaço cénico/cenário – poderia ser considerada como uma suspensão, aliás, uma dupla suspensão: a do tempo teatral, ou seja, o tempo da representação, e o da realidade que a metáfora teatral procura alcançar. As marionetas, cuja vida advém do movimento, estão agora imóveis, nesse estado passageiro, “à espera” do momento mágico do acto teatral, da criação da ilusão poética que as fará serem “duplos” das nossas vidas.
As cenas apresentadas, referentes a onze espectáculos, abrangem um período do tempo que vai de 1988, com Vida de Esopo, até à nossa última produção para a infância, Como um Carrossel à Volta do Sol (2006).
Exactamente o tempo de vida da companhia.
Ao olhar atento e distante do visitante revelar-se-á o percurso de um colectivo artístico ao longo de dezoito anos e a sua natural maturação estética. Caminhos trilhados com certezas e incertezas na convicção de que o teatro é o nosso testemunho em relação à forma como sentimos o mundo e que da partilha dos nossos sonhos e inquietações com o público se dá sentido ao acto teatral.
João Paulo Seara Cardoso