Um Jogo de Fios e dedos

AS MARIONETAS

PERSONAGENS PEQUENINAS, EM MADEIRA pintada, tecido, marfim. Personagens cheias de magia. Contos coloridos. Vida. Graça. O artista, escondido atrás do cenário, dá-lhes movimento e uma alma, num jogo mágico de fios e dedos. São as marionetas. É o teatro. A fantasia.

Os antigos, egípcios, gregos e chineses conheciam estes encantadores bonecos articulados, que exibiam durante as procissões sagradas. As marionetas caracterizavam, ridicularizavam, travestiam um deus ou um grande personagem, desempenhando o papel de bufões. Era o tempo dos teatros ambulantes, o tempo em que os bonecos ressaltavam a idiotia das pessoas, o mesmo tempo em que a igreja medieval proibia o seu uso nas representações dos mistérios.

Na Europa e na Ásia, principalmente no Japão, criaram-se personagens tipo, arquétipos de paixões humanas. O bunraku, esse teatro tradicional de marionetas, constituía verdadeiros dramas cósmicos, familiares e individuais. A marioneta afastava e unia o povo, guiava o poder das suas paixões, vivia no circo das tradições e lendas comuns.

Grandes escritores como Goethe e compositores como Mozart e Haydn dedicaram-se a escrever obras de teatro para marionetas. E no mundo dos bonecos articulados, o títere detinha todas essas forças. Um imenso poder mágico.

Gasta, envelhecida, a marioneta passa do teatro para o antiquário, conservando a sua virtude secreta. E os poetas cantam-na como espantoso símbolo da humanidade.

Eis a marioneta, a heroína dos desejos secretos e dos pensamentos clandestinos. Um boneco de madeira suspenso por um fio pelo qual todos os seres estão ligados.

As mãos que Geram Mundos OS MARIONETISTAS

AS MÃOS DO MARIONETISTA SEGURAM NAS marionetas afectuosamente, transmitem-lhes movimento, giram no ar e rodopiam numa dança frenética e incansável. São mágicas, as mãos que dão vida e criam todo um mundo fantástico, mãos sensíveis, que alegram e que choram, que embalam e que acordam. As mãos do marionetista, gerador de magias encantatórias e sedutoras, são assim: invisíveis, silenciosas, remotas, espessas e criativas.

O marionetista estabelece uma relação de paixão e de dependência com essas figuras de pano, madeira, louça esmaltada, cerâmica, petrificadas quando postas em sossego, mas vivas e fabulosas a partir do momento em que as toca e as conduz para o palco. As marionetas esperam pela figura humana para se moverem, criam com ela uma relação de complementaridade - sem as marionetas, o marionetista sente-se abandonado; sem o homem que as move, elas quedam-se a olhá-lo, como que a chamá-lo para serem tocadas, a pedirem que ele as faça mover, respirar, enfim, viver. São as mãos que unem o boneco ao marionetista. Numa espécie de relação umbilical, as mãos são o elo de ligação entre os corpos da marioneta e do seu manipulador.

Nos espectáculos do Teatro de Marionetas do Porto, o manuseamento é feito com o marionetista à vista do público. Em vez dos fios que fazem mover os fantoches, estes são extensões do corpo do seu manuseador que, se confunde com o boneco inanimado. E, nesse momento, em palco, a transformação é completa. A marioneta adquire a alma do actor. O manipulador assume o corpo das marionetas. O actor pega no boneco e com ele faz uma dança de dois corpos em que o seu se transforma numa espécie de satélite da marioneta. Ela é o ponto sobre o qual o manuseador actua, ela é o centro. João Paulo Seara Cardoso, director artístico do Teatro de Marionetas portuense, define a relação que o actor estabelece com a marioneta como um espelho falso, em que existe uma imagem, mas sem retorno, a marioneta é o “duplo do actor, duplo que transmite uma ilusão ilusão de vida”, de mescla de máscara e de realidade. O Teatro de Marionetas do Porto realiza espectáculos onde diversas artes se manifestam em palco, áudio, cénicas, visuais, mas dando, sobretudo, primazia ao visual no seu encanto magnético. Espectáculos em que as marionetas possibilitam “a busca de modos de vida artificiais que se projectam mais facilmente no mundo dos sentimentos humanos”.

Trabalho artístico exigente o de marionetista, que requer, para um espectáculo que não ultrapassa os cinquenta minutos, uma preparação de três meses numa entrega diária de seis horas. Depois destes ensaios extenuantes, finalmente o palco enche-se de rostos e corpos em movimento. Algo acontece quando aquelas mãos iniciam o seu trabalho, mistura de sensibilidade e rigor, de encanto e precisão, coordenando as actividades que vão decorrendo no palco. Este palco corresponde a uma linha que revela acontecimentos, em que as marionetas se contorcem, se dão ao movimento, numa estranha simbiose entre si e os seus manipuladores. E elas adquirem aquele pedaço de existência a que aspiram na sua mudez expressiva, elas ganham asas e saem das prateleiras onde são guardadas e vivem…vivem e encantam com os seus sorrisos e ritos faciais e corporais, todos elas pequenas ilusões de vida.

Sandra Duarte Macedo
in Revista Villa & Golf, Dezembro de 2002

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