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Desde 1988, a cidade do Porto tem a felicidade de albergar uma companhia de teatro de marionetas, sediada no Teatro de Belomonte, na rua do mesmo nome, desde 1992, mas cuja exiguidade de espaço obrigou a procura de um espaço próprio que dê lugar ao imenso público que costuma comparecer nos seus espectáculos o que foi conseguido, conforme se comprova pela merecida marcação de terreno com um cartaz no novo edifício, cedido pela Câmara do Porto, e que agora precisa (apenas?) de ser adaptado, o que não é possível de ser eito milagrosamente. Mais uma vez vamos encalhar nas divergências de prioridades existentes nesta terra: a prioridade do asfalto sobre a da cultura. As provas já estão suficientemente dadas de que o Teatro de Marionetas do Porto não existe à sombra dos subsídios do Estado, pois isso não teria chegado sequer para o meio caminho. Não serve portanto esse argumento para negar aquilo é que suposto, o apoio financeiro para fazer funcionar um espaço que não precisa de continuar vazio, que não quer ficar vazio. Dêem-se as nozes a quem tem dentes.

Está também mostrada a existência de público para espectáculos de qualidade através da diversificação, nomeadamente através da captação das crianças que têm sido privilegiadas nas ofertas desta companhia, mas nunca público exclusivo.

Esta companhia conseguiu criar uma estrutura sólida, assegurado uma programação continuada de forma a manter-se, assim, viva na memória dos espectadores. Não se trata de uma recita, que não as há nestas coisas, como em quase todas, mas bastaram apenas algumas condições: um espaço próprio, um trabalho constante, a digressão sistemática por todo o país, a manutenção, em cartaz, para reposição, de alguns espectáculos. Quanto ao público infantil, através dos normais contactos com escolas do primeiro ciclo do ensino Básico, o TMP conquistou, ao longo destes anos, uma presença que roda as catorze mil crianças, mantendo assim alguns espectáculos em cena durante períodos recorda, como foi recente caso de “Polegarzinho”, com setenta e duas representações em 2002, tendo atingido, no Porto, a presença de cerca de 10000 espectadores.

Para além das digressões pelo País o TMP, para nosso bem, saído além fronteiras, participando em festivais internacionais um pouco por toda a Europa (Espanha, França, Alemanha, Itália), bem como no Rio de Janeiro e em Cabo Verde.

O Teatro de Marionetas do Porto merece o aplauso pela qualidade e inovação da proposta de trabalho que nos apresenta: desde espectáculos dedicados às crianças, mas nunca só a elas, como “Óscar”, “Polegarzinho”, até à criação de universos absolutamente, inusitados e no entanto magníficos, como é o caso de “Macbeth”, uma incursão ousada no mundo trágico de Shakespeare, “Nada ou o Silêncio de Beckett”, o mergulho feliz no absurdo do dramaturgo irlandês contemporâneo, ou “Paisagem Azul com Automóveis”, um tecido de linguagens emergido do mundo citadino actual. Nestes espectáculos, mais recentes, como em todos, assistimos à magia do cruzamento de formas tão diferentes como o teatro português de fantoches, ou as mascaradas transmontanas, com o teatro de sombras chinês em diálogo polifónico com a experimentação mais ousadamente contemporânea da marioneta como objecto de manipulação à vista.

Um espectáculo que vi, em 2000, e revejo sempre que possível. Que merece vaguear pelo país todo e além fronteiras o mais possível. Já Beckett é um dramaturgo fundamental, que sempre vale a pena ler, ver, rever...Tratado exemplarmente por João Paulo Seara Cardoso e toda a equipe que o recriou é quase inacreditável. Isso é: conseguir pôr em cena, todo o autor, toda a obra com meios aparentemente rudimentares, como são três excelentes actores que ora manuseiam marionetas, ora o seu próprio corpo. Só para nos dar o universo de um silêncio cheio como é o do dramaturgo irlandês. Aí encontramos DIDI e GOGO, e WINNIE e WILLIE e MOLLY, e...aí encontramos, afinal, GODOT. Não são precisas as palavras.

Talvez por isso, uma outra experiência inspirada, desta vez, na pintura de Magritte. Estamos a falar do espectáculo agora em cena no Balleteatro Auditório, “O Princípio do Prazer”. Uma maneira outra de fazer teatro.

Em suma, nem sempre as coisas vão mal no nosso reino da Dinamarca. Quem quiser ver pode encontrar verdadeiras pérolas. Pena é que o seu brilho muitas vezes fique ofuscado pela sujidade envolvente.

Ângela Marques (Dramaturga)
in 1º de Janeiro, 10 de Fevereiro de 2003

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