As marionetas vieram fazer-nos uma visita

Parece que foi ontem mas o Teatro de Marionetas do Porto já anda nisto há 20 anos. E em ano de festança rija, a Companhia pouco tem parado na Invicta. Pegou nos melhores espectáculos que produziu ao longo de duas décadas de intensa actividade, acondicionou tudo muito bem acondicionado dentro de uma malinha e tem percorrido o País de lés a lés, levando ou revelando as marionetas a gente de todas as idades. Escolheu Lisboa para fechar o aniversário com chave de ouro e ainda bem, dizemos nós.

Depois de 230 representações num só ano adivinhava-se cansaço por parte de técnicos e actores mas, a provar o contrário, o mesmo elenco do Teatro de Marionetas do Porto leva à cena no mesmo fim-de-semana dois espectáculos diferentes, distribuídos pelo Pequeno e pelo Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB).

Óscar é talvez o mais autobiográfico, segundo as palavras do seu cenógrafo e encenador. Tal como o menino da história, também João Paulo Seara Cardoso tinha, quando era criança, um jardim preferido onde perdia a noção das horas e ganhava amigos imaginários por entre as árvores e as flores. Embora porventura não tão rebuscados como os de Oscar: o Porco Cambalhota, que um dia cambalhotou até à Lua; o Ouriço Ribeiro e a sua fábrica de compota de maçã; a Vaca Radical que bebe a água da chuva; a Laranjeira, que só dá laranjas amanhã; as Flores, que mudam sempre de lugar; o Gigante, que tem um carrossel dentro da cabeça; e a Galinha Chocapic, que choca um ovo que não é novo e todos os bichos, bicharocos e plantas deste jardim, gerido pelo Jardineiro Joaquim.

Quando as luzes se apagarem e a agitação no palco começar, repare bem nas marionetas deste espectáculo que percorre uma por uma as estações do ano e chame a atenção dos seus filhos. É que estas são especiais: foram criadas a partir de desenhos feitos por crianças, o que justifica um certo traço naif que o Teatro de Marionetas do Porto fez questão de conservar.

Como um Carrossel à Volta do Sol pode ser descrita como uma peça sobre uma criança que está na idade dos porquês. "O pesadelo é uma coisa que mete medo?", "As vacas voam?", "As casas falam?", "As árvores têm pernas?", "Como se vai ao céu?", "Os automóveis ficam cansados?", "O que é que é tudo?".
Como vê, muitas perguntas a fazer rodopiar a cabeça de um palmo e meio de gente à velocidade de um carrossel. A voz da criancinha curiosa vai-se fazendo ouvir ao longo de todo o espectáculo e quase apostamos que encontrará fortes semelhanças com as línguas de perguntador que moram na sua própria casa.

No final do espectáculo bata palmas com o dobro do vigor. Pelo que acabou de ver com os miúdos e pelos 20 anos do Teatro de Marionetas do Porto. João Paulo Seara Cardoso diz que não sente o peso da concorrência das consolas, dos computadores ou da televisão. "São formas de comunicação impessoais, que causam uma certa alienação. O teatro é como um regresso à comunicação mais humana e apazigua as pessoas".

Apazigua-nos, emociona-nos, faz-nos questionar e, no caso dos dois espectáculos que sobem aos palcos do CCB no próximo final de semana, também arrancará risos. E não só das crianças: "É muito frequente ver adultos a rir nos espectáculos do Teatro de Marionetas do Porto."

"Oscar e Como um Carrossel à Volta do Sol" está no Centro Cultural de Belém. O espectáculo é para maiores de três anos.

In Time Out, Lisboa, 9 de Dezembro de 2008

© Teatro de Marionetas do Porto 2008