Duas décadas nos palcos é a idade que o TMP celebra em 2008, aniversário que vai assinalar com uma revisitação: 17 produções que marcaram o passado serão de novo encenadas. Juntamente com uma estreia
Este 2008 é ano de comemorações. Pelo menos para o Teatro de Marionetas do Porto (TMP), que assinala 20 anos de actividade. A par da estreia de uma nova produção, que se reveste de um carácter de certa forma célëbratório-Boca de Cena:Teatro-Jantar -, o grupo propõe ao público de todas as idades uma revisitação do seu passado, apresentando 17 produções marcantes do percurso da companhia.
Entre o Porto, diversas cidades portuguesas e algumas deslocações ao estrangeiro, a companhia efectuará um total de 214 representações.
O TMP é uma das companhias portuguesas de teatro mais reconhecidas e premiadas internacionalmente. Desde os finais do anos 90 que o grupo assumiu uma vertente artística urbana, que o levou a explorar outros - todos! - os tecidos estéticos, em busca de uma certa contemporaneidade, nomeadamente com 3ª Estação, uma co-produção com o Balleteatro Companhia que ensaia o cruzamento das marionetas com a dança. Mais tarde, Exit (1998), a primeira peça do denominado ciclo urbano, no qual se procura uma reflexão sobre a condição humana pós-moderna, e no qual o teatro de marionetas é contaminado por outras linguagens artísticas como a música, o vídeo, a dança e as artes plásticas assumindo uma dimensão mais performativa, marca definitivamente o assumir de um caminho de risco. E quem não se recorda, durante a Expo'98, da peregrinação futurista que percorria o recinto da exposição duas vezes ao dia? A plataforma mecânica e industrial onde marchavam estranhas criaturas do futuro,era o carro do TMP, Máquina-Homem/Clone-Fighters. João Paulo Seara Cardoso, o director do TMP, em conversa informal recorda os primeiros dias da companhia, a sua história, e ajuda a compreender a actual filosof ia do TMP.
Criado em Setembro de 1988, uma data simbólica que coincide com a apresentação da companhia na selecção oficial do Festival Mondial desThéâtres de Marionnettes, em Charleville-Mézières, o reportório da companhia começa por integrar o Teatro Dom Roberto, fantoches da tradição portuguesa, que João Paulo Seara Cardoso herdara das mãos de mestre António Dias, último representante da geração de bonequeiros itinerantes, em 1980.
Os primeiros espectáculos criados pela companhia são fruto de uma pesquisa do património popular, sobretudo ao nível dos contos e das práticas e rituais teatrais do norte do país.
Por esta altura, na sequência de um convite da RTP, a companhia constitui uma equipa de criação alargada (Sérgio Godinho, Jorge Constante Pereira e Alberto Péssimo) que, durante cerca de dois anos, desenvolve vários projectos televisivos para crianças que viriam, de certa forma, a marcar uma geração e dos quais se destacam A Árvore dos Patafúrdios e Os Amigos do Gaspar.
Em 1991, com a estreia de Miséria, em 1991, espectáculo muito bem acolhido pelos espectadores e pela crítica, e que representa também o primeiro apoio financeiro do Estado à actividade da companhia, o TMP alcança o reconhecimento público. Dois anos depois estreia Vai no Batalha, uma revista à portuguesa com marionetas, crítica mordaz ao cavaquismo e à mentalidade portuguesa vigente no início dos anos 90, que fica em cena cerca de um ano com lotações esgotadas.
Mas testadas algumas fórmulas de teatro popular, inicia-se um novo ciclo radicalmente diferente na história da companhia. Os espectáculos dirigidos a um público infanto-juvenil passam a integrar a produção anual da companhia, sempre com base em textos originais posteriormente editados em livro.
É, pois, na segunda metade dos anos 90 que se regista uma forte consolidação do projecto artístico da companhia. A corrente de público portuense alarga-se consideravelmente, obrigando a companhia a abandonar o pequeno teatro de Belomonte e a procurar outros espaços de maior dimensão na cidade. O TMP adquire definitivamente uma projecção internacional que o leva a apresentar-se regularmente na Europa e em diversos países do mundo (Espanha, França, Manda, Bélgica, Holanda, Áustria, Suíça, Itália, Israel, Brasil, Polónia, Cabo Verde, Inglaterra, Marrocos, China, República Checa, Canadá e Alemanha). E cria uma rede de parceiros de programação em Portugal que faz com que, actualmente, cerca de 30% da actividade se desenvolva em itinerância. É neste contexto e com uma linha programática consolidada, que o TMP desenvolve a sua actividade a partir do início do novo século. Alguns espectáculos marcam esta fase: Nada ou o Silêncio de Beckett, a produção apresentada mais vezes no estrangeiro, Macbeth, uma importante experiência de "teatro de texto", Paisagem Azul com Automóveis, co-produção Porto 2001 e TNSJ e Cabaret Molotov, uma incursão no universo do circo e do cabaré.
Actualmente, o TMP está empenhado num importante projecto: a abertura do Museu de Marionetas do Porto, que ficará sedeado na rua das Flores, no centro histórico da cidade e que constituirá uma mostra pública do importante acervo reunido ao longo dos anos e que consta de cerca de 1200 peças, entre marionetas, cenários e adereços.
Fernando dos Santos
in "Global Notícias", 7 de Abril de 2008
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