Cada boneco que voa hoje no trapézio montado no espetáculo Cabaret Molotov foi concebido como se fosse uma obra de arte. Nasce do estudo minucioso do Teatro de Marionetes do Porto, que propõe fusão de linguagens, sobretudo com a música e as artes plásticas. Criado em 1988, na cidade de Porto (Portugal), o grupo consolidou-se ao fazer um teatro de imagens, no qual a palavra não é o ponto principal de apoio. O canto e a fisicalidade são elementos fortes da companhia, que, antes de pisar em Brasília, já tinha vindo ao Brasil para turnê no Nordeste, intercâmbio luso-brasileiro no Rio de Janeiro e Festival de Bonecos de Canela (RS).
— Sempre me interessei pela arquitetura de Niemeyer e toda a sua influência do modernismo português. Ver os monumentos pessoalmente é especial. Fiquei emocionado ao encontrar a Catedral. Mas Niemeyer é o arquiteto mais sensual de todos, com suas curvas, elege o diretor João Paulo Seara Cardoso.
Em Brasília até sábado, João Paulo apresenta dois espetáculos. Além de Cabaret Molotov, cujas marionetes vão da escala do corpo humano à miniatura, ele mostra Miséria, criado há 18 anos e com mais de 500 apresentações, da China a Israel.
— É uma espécie de mito popular de Fausto, que faz pacto com a morte para alcançar a eternidade. No palco, estou na companhia de mais quatro marionetes, adianta João Paulo, que pretende aproveitar a diversidade do Cena Contemporânea e ver espetáculos alheios.
Professor de teatro numa universidade que prioriza a dança, ele instigou, no grupo, a pesquisa sobre manipulação de marionetes, que muda a cada montagem. A ideia do ator escondido, para reforçar a ilusão do teatro de boneco, é desfeita com a visibilidade do intérprete, que detém técnicas de canto, de dança e de movimentos.
—A técnica define a estética. E o intérprete está exposto, numa zona de luz de penumbra, de forma que o espectador perceba o exercício de manipulação, num jogo de vida ou morte no palco. Isso é a base da nossa teatralidade, destaca o diretor.
De mérito cultural reconhecido pelo governo português, que subsidia a companhia com 50% dos custos de manutenção e criação, o Teatro de Marionetes do Porto produz dois espetáculos por ano, um infantil e outro adulto. A receita complementar advém de bilheteria (o grupo chegou a fazer 220 apresentações anuais na cidade-sede) e participação em festivais internacionais, numa itinerância que abrange, sobretudo, a Europa.
As ideias das montagens nascem, geralmente, da percepção de João Paulo. Lançadas, germinam nos corpos dos intérpretes e das marionetes, confeccionadas por artista plástico e ilustrador. Uma das peças, Boca de cena, é um jantar para 50 pessoas, em um convento secular do Porto, no qual os garçons oferecem iguarias e cenas teatrais.
— Quando o espetáculo estreia, percebo claramente essa criação partilhada, admite o diretor.
Sérgio Maggio
in "Correio Braziliense", 26 de Agosto de 2008
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