Sem fios a sustentá-lo, mas com muitos laços com a comunidade que o acolhe, o Teatro de Marionetas do Porto celebra 20 anos
O público agita bandeirinhas no ar, pedindo mais vinho, o escalpe do palhaço Ronald Macdonald é exibido pelo sádico chefe de cozinha, a Barbie e o Ken brincam debaixo dos lençóis enquanto discutem o cancelamento da assinatura da TV Cabo, leitões da Bairrada interpretam um número musical, um qué frô vende rosas pelas mesas e os actores oferecem festinhas grátis aos comensais. O delírio, o sonho e o inconformismo dominam a nova criação do Teatro de Marionetas no Porto (TMP), Boca de Cena—Teatro Jantar, e sublinha os traços que resumem a essência da companhia, por altura das comemorações dos seus 20 anos de actividade. «A nossa linguagem teatral tenta reflectir sobre a contemporaneidade, sobre a condição do homem no mundo actual», explica João Paulo Seara Cardoso, o director artístico. Quem conhece o percurso do TMP identifica-se com esta perturbação dos cinco sentidos, visível em cada espectáculo: «Gostaria que as pessoas saíssem com a sensação de que aquele momento foi importante nas suas vidas, e não de que se riram muito mas não ficou nada. Não fazemos fast food.»
O Teatro de Marionetas do Porto começou por beber das tradições teatrais portuguesas, com Seara Cardoso em busca dos mestres bonecreiros, de norte a sul do País, mas recusou qualquer cristalização criativa. A integração de outras linguagens de palco, como a dança, as artes plásticas e a música, é habitual. «Já tivemos fórmulas de sucesso que eram facílimas de repetir eternamente e multiplicariam o público até ao infinito. Felizmente, somos incapazes de voltar aos mesmos registos. O nosso percurso é uma busca permanente de coisas novas», diz Seara Cardoso. Dos populares Dom Robertos a um Capuchinho Vermelho em versão hard core, da linguagem poética de Macbeth à iconografia beckettiana, ou do espírito barroco de António José da Silva ao mundo do cabaret, o TMP não se esquivou a novas experiências. Numa altura em que a lógica economicista prevalece nas políticas culturais, a companhia assume riscos. «Não me interessa criar objectos artísticos que correspondam a um gosto instituído.»
Aqui as marionetas não precisam de fios manipuladores e dividem o palco com actores, «únicos elementos fundamentais e indispensáveis, no acto teatral». Da estrutura fixa da companhia, destacam-se três nomes: Edgard Fernandes, Sara Henriques e Sérgio Rolo. Dançam, cantam, movimentam-se com toda a destreza, falam várias línguas e, sobretudo, afastam-se das maneiras convencionais de dizer o texto. São, de pleno direito, partes activas na criação. «O paradoxo do teatro ocidental é o homem pretender representar-se a si próprio, não tendo distância suficiente em relação ao objecto representado. As marionetas resolvem o problema e criam a ilusão de vida própria. Quando se vê um teatro de marionetas bem feito, muitas vezes esquece-se que aquela é uma personagem de madeira.»
O pequeno público
No teatro infantil, a preocupação é que os textos sejam pontos de partida para a criação de objectos fantásticos. Todos os anos, uma nova produção é estreada. E assume-se a luta contra as referências actuais, quase mercantilistas, com a Leopoldina elevada a ícone das crianças portuguesas. «Não é fácil, mas estou convencido de que, para as crianças, ir ao teatro, sentir que há uma proposta de um mundo ilusório que corresponde ao seu universo onírico, constitui uma experiência única.» Não faltam casos a comprovar a teoria. «Há pessoas que conhecem quase todo o nosso repertório. Começaram a ver os espectáculos quando eram miúdos e, hoje, acompanham as nossas produções para adultos.»
No Teatro de Belomonte, sede do TMP, em pleno centro histórico da cidade, acumulam-se caixotes com cerca de 1200 peças de antigas produções. «São memórias muito intensas do nosso percurso», diz Seara Cardoso. Sendo uma companhia de repertório, reposições de espectáculos com mais de dez anos são frequentes.
Por concretizar está o projecto do Museu das Marionetas do Porto. A nova morada já foi escolhida, um edifício na Rua das Flores que, depois de um moroso processo de licenciamento - impossibilitando a candidatura a fundos comunitários -, deverá ser recuperado no início de 2008. «São obras financiadas por nós, ainda não temos garantido qualquer apoio», diz o director. E nem se pode acusar a companhia de adoptar uma política de braço estendido. As suas produções são, normalmente, um sucesso de bilheteira, dentro e fora de portas. Recusam metade dos convites do estrangeiro e, mesmo assim, têm previstas, para 2008, apresentações no Brasil, Polónia, França, Itália e Espanha. Aliás, «num festival de teatro em Ciudad Rodrigo, no ano passado, com o espectáculo Cabaret Molotov, tivemos uma experiência transcendente: bateram-nos palmas, de pé, durante largos minutos», recorda. As solicitações choveram. Se as aceitassem, poderiam estar, durante dois anos, em viagem pelo país vizinho. Mas mantêm-se fiéis às raízes. O público português agradece.
Joana Loureiro
in "Visão", 3 de Janeiro de 2008
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