Marionetas do Mundo

Não há só marionetas de água para ver em Almada. O Teatro de Marionetas do Porto regressa, em dose dupla. Com Nada ou o Silêncio de Beckett, de 1999, cumpre a reposição do ano anterior, na qualidade de espectáculo de honra. E, com Cabaret Molotov, apresentam em Almada a mais recente encenação de João Paulo Seara Cardoso. E ainda mais Marionetas: do Chile chega Gulliver, espectáculo ilusionista de Jaime Lorca a partir do romance agridoce de Jonathan Swift.

O Actor e o seu duplo: breve apresentação do Teatro de Marionetas do Porto

Talvez a fórmula mais exacta para definir o trabalho da companhia seja a que foi utilizada por João Paulo Seara Cardoso, o seu director artístico, quando disse que o Teatro de Marionetas do Porto (TMP) realizava, na verdade, um teatro com marionetas. A mudança de pre­posição serve aqui para evidenciar como os bonecos utilizados pelo grupo não obedecem à lógica tradicional. Com efeito, nunca nesta companhia foram utilizadas marionetas de tios, visto que elas são antes perspectivadas como objectos, como mais um elemento para a construção do espectáculo.

Esta dimensão experimental, bem presente no propósito de construir as marionetas de maneira adequada à linguagem de cada criação, quase esconde as origens do grupo, que remontam aos tempos do Teatro Amador de Intervenção (TAI). Foi no final da década de 1970 que o interesse de Seara Cardoso pelo teatro de inspiração popular o levou à descoberta de um património cultural que incluía representa­ções do Auto de Floripes, do Enterro do Judas, da Serração da Velha ou das Bugiadas de Sobrado. Ainda, o contacto com o mestre bonecreiro António Dias permitiu a definição de um modelo de teatro em que a marioneta desempenha um papel central, que foi sendo ensaia­do até se chegar à apresentação de Miséria, em Charleville-Mézières, no Festival Mundial de Marionetas. A necessidade de atribuir aí um nome ao colectivo deu origem ao nascimento do TMP, em 1988, que herdaria assim um repertório do TAI, mais especificamente tradicional. O propósito de criar espectáculos de marionetas com uma dimensão contemporânea, dando expressão à vontade de reflectir sobre o mundo actual, esteve na base de uma progressiva mudança de registo, em trabalhos como Entre a Vida e a Morte (1989) e Vai no Batalha (1993) - em que, antecipando o actual panorama cinzento do teatro no Porto, a figura de La Féria aparecia, então, com o desejo de impor, através de decisões políticas, um "teatro nacional obrigatório". O êxito desse espectáculo não desviou a companhia de um caminho em que a experimentação significa recusa da cristalização do projec­to. Com o pequeno Teatro de Belomonte como sede, o primeiro espa­ço do género em Portugal, o grupo evoluiu no sentido de explicitar a artificialidade da utilização das marionetas, expondo em definitivo os actores que as manipulam. À marioneta é, assim, atribuído o estatuto ambíguo de objecto e, em simultâneo, de espelho ou metáfora do ser humano. A sua presença em palco ao lado do manipulador confere-lhe uma estranha efemeridade, como se a sua "vida" estivesse presa de um modo arbitrário às decisões daquele ser que detém o poder de a animar. Não surpreende, portanto, em função da existência absurda a que as marionetas, deste modo, aparecem condenadas, que Beckett tenha sido um dos autores a incluir no repertório. Confirmar o modo como os traços fundamentais do autor estruturam a peça sem texto Nada ou o Silêncio de Beckett (1999) é uma das melhores maneiras de aceder ao mundo destas marionetas e da forma como elas constroem um olhar sobre a existência humana, marcado pelo desencan­to, mas também por um evidente sentido de humor. Se a ausência de texto não causou estranheza, tal poderá ter ficado a dever-se ao modo como as palavras são encaradas nos espectáculos do TMP: como signos cénicos, à imagem dos adereços ou da banda sonora, as palavras ultrapassam o registo naturalista impondo-se como elemento aberto a uma exploração polissémica. A excepção ao trabalho com um texto pré-determinado verifica-se nas peças para público infanto-juvenil, cerca de metade do repertório do TMP: Óscar (1999), Os Três Porquinhos (2000), Polegarzinho (2002), História da Praia Grande (2003), ou o recentíssimo Bichos do Bosque (2007). No capítulo dos trabalhos para adultos, um dos espectáculos em que as palavras originais mereceram mais respeito na sua integralidade foi Macbeth (2001); outros resultaram de textos construídos durante os ensaios. O que todos esses títulos, como Exit (1998), Paisagem Azul com Automóveis (2001), Os Encantos de Medeia (2005), ou Cabaret Molotov (2006), têm em comum é o propósito conseguido de estabe­lecerem uma relação profícua com outras áreas da criação, como a dança, as artes plásticas e a música.Com uma intensa actividade de itinerância em Portugal e no estrangeiro, a par da participação regular em festivais internacionais, o TM P tem sabido fazer de cada espectá­culo uma renovação do diálogo que estes actores estabelecem com os seus duplos, as marionetas.

João Paulo Sousa
in "Revista Obscena", Junho-Julho 2007

© Teatro de Marionetas do Porto 2008