O teatro português tem-se revelado extremamente hermético em relação às novas realidades e às novas práticas artísticas desde os anos de grande vitalidade criativa que precederam e se seguiram a 1974.
Persistem, em minha opinião, dois problemas fundamentais no teatro português: por um lado a ausência de uma expressiva dramaturgia contemporânea que se torne reflexiva das novas realidades do mundo em que vivemos, um mundo de turbulência e urgência que naturalmente coloca profundos problemas em relação á actualização das práticas artísticas e em relação aos quais se torna necessário encontrar respostas corajosas.
Por outro lado, a falta de um espírito inovador e de um sentido de risco nas propostas criativas, por forma a que o teatro se liberte dum certo arcaismo que releva da sua prática ancestral e possa corresponder aos anseios de um público que deseja incessantemente encontrar na arte, e no teatro em particular, um sentido de apaziguamento, um sentimento de reencontro com a harmonia de um mundo hostil caracterizado pela massificação e pelo isolamento.
Esta ausência de vitalidade criativa e de sentido de identidade cultural, aliados a um manifesto desinteresse das entidades responsáveis, conduzem a que a projecção da cultura portuguesa no estrangeiro, um desígnio fundamental que encontra uma forte expressão noutras áreas da criação artística, seja quase inexistente no teatro.
Embora seja este o meu sentimento dominante em relação à realidade do actual teatro português, não posso deixar de referir exemplos de criadores e grupos de uma grande integridade intelectual que teimam em não se deixarem contaminar pelas práticas imediatistas que caracterizam a comunicação actual, pela mediocridade, pelo conformismo, fazendo da sua arte um último reduto de resistência política e cultural.
O meu grande anseio, como criador e como espectador, seria que o teatro contemporâneo reconquistasse o seu terreno primordial de reflexão sobre a condição humana, reencontrasse uma linguagem actual de profunda ressonância com o mundo, em relação ao qual não se pode constituir como mera evocação passiva. Um teatro que, ao colocar diante dos nossos olhos o próprio homem, pudesse reflectir os seus desassossegos, as suas ânsias e paixões, convertendo---as na matéria incandescente do acto teatral.
João Paulo Seara Cardoso