Liberdade e aventura
16 de Março 1996
Texto:
Teixeira Mendes
Quando se pergunta a um homem o que ele é, a resposta é imediata: sou advogado, médico, engenheiro. Mas o que acontece quando se faz a mesma pergunta a um homem de teatro? Ele pára um instante. Pensa. E as respostas podem ser variadas.
Porque o actor/encenador é um ser mutante. Ora é Otelo, ora é Antígona, ora é o romeiro Frei Luís de Sousa. A resposta muda conforme o “cenário” em que ele está de momento. No Porto, existem actores de nível superior que são apreciados individualmente e culturalmente reconhecidos. Por outras palavras: possuem uma filiação e, por consequência, um valor que os inter-relaciona.
João Paulo Seara Cardoso e as suas «estórias» confundem-se com a própria história recente do teatro de marionetas da cidade do Porto. Sem este técnico fantocheiro e o grupo que ele inventou (Teatro Amador de Intervenção) e manteve durante algum tempo, no final dos anos 70, certamente o panorama do teatro hoje em dia seria completamente diferente.
Gosta de encenar, tem o instinto do rapsodo. Ele é o “guru” da Companhia de Teatro de Marionetas do Porto (CTMP). Muito à margem das escolas, seus tabus, ídolos e superstições, iniciou a sua actividade em 1978, no Curso de Iniciação Teatral da Seiva Trupe. Posteriormente, tem as suas primeiras experiências teatrais como actor e encenador em diversos grupos amadores e no Teatro Universitário do Porto (TUP). Foi, todavia, com Mestre António Dias que João Paulo Seara Cardoso aprendeu as primeiras técnicas - a arte e o saber dos robertos - podendo dizer-se que dele colheu directamente os ensinamentos e as técnicas (de um modo muito diferente da maioria). Foi o despertar para um trabalho sistemático de pesquisa e estudo do teatro de fantoches, muito antes que tudo isto se tornasse moda na Europa.
Não deixou de atrair as atenções.
Estudou, porém, no Institut National d`Educacion Populaire e no Institutu Internationale de la Marionnete, em França. Em 1988, altura em que começou a estudar a fundo o legado de mestre Dias, surge o projecto da Companhia de Teatro de Marionetas do Porto (CTMP). Organizou, entretanto, «tournées» do Teatro Dom Roberto, espectáculos de teatro infantil e juvenil e programas de TV (entre os quais A árvore dos Patafurdios, Os Amigos de Gaspar, Mopi e no Tempo dos Afonsinhos). Mas, que figura é esta? Quais os seus «campos magnéticos»? Nascido no Porto, em 1956. João Paulo Seara Cardoso é um exemplo luminosos de ser que partiu do mundo das coisas, de uma deriva mais ou menos espectacular em torno da linguagem e da comunicação (ou não comunicação do teatro contemporâneo). Por causa da paixão pelo teatro deixou tudo: o curso de Engenharia, a segurança e a estabilidade.
Seara Cardoso é, porém, um encenador «radical» que recusa os compromissos imediatos. Pertence à nova geração de actores que - repetimo-lo - assume a cega vontade de um teatro «puro e essencial»: um novo modo de ensaiar a representação. O seu raciocínio é muito simples: o teatro do Porto - e a definitiva verdade com que cada um se defronta - necessita de uma nova prática produtora de sentido(s). Ele no-lo diz: «O teatro é ma pesquisa das suas próprias razões. Só a plena e total liberdade lhe serve, pois o objectivo é chegar a situações novas». Daí derivam, segundo ele, todos os seus projectos, que desde 1978 se foram sucedendo, através de várias circunstâncias político-culturais. Grande apaixonado da Literatura, tem procurado na criação, encenação e cenografia revelar as potencialidades do teatro experimental. Sempre exigindo de si próprio uma consciência pura. Seara Cardoso entende que que no teatro portuense permanece o vazio de projectos, mas que toda a ordem de novos valores está no ao seu alcance: «É tão grande o vazio que começaram a surgiri novos agrupamentos. Fácil será compreendermos as razões que levam a falar-se de crise se nos lembrarmos, de maneira quase radical, que as companhias tradicionais já não dispõem de argumentos e, neste caso, de linguagens de raiz. Elo menos convictamente sinceras. É urgente a metamorfose».
Enquanto professor da cadeira de interpretação do Ballet-Teatro Escola Profissional acolhe-se à sombra exemplar do modelo shakespeariano. E diz-se fiel a um certo número de autores: Artaud, Ionesco ou Jean Anouilh.
Para João Paulo Seara Cardoso o teatro portuense exibe problemas especifícos dado o encarecimento da produção cénica, surpreendendo, tantas vezes, os planos orçamentários de uma companhia em plena temporada. Não deixa, porém de lembrar que «o teatro precisa de encontrar a sua linguagem», enfim «não respirar chavões velhos de algumas décadas (ou até séculos)». Negando a concepção museológica do teatro, o director artístico da CTMP é partidário de um teatro anti-académico. Paralelamente - ou subsequentemente - experimental (pelo trabalho sobre a linguagem).
Com efeito, «o teatro de texto», diz ainda Seara Cardoso, «tem tendência a ser cada vez mais obsoleto» numa era da imagem. E explicita o seu raciocínio:«Entre nós foi-se lentamente operando um teatro sem texto e onde a vertente da imagem é privilegiada. A formulação de um teatro onírico que represente o ponto de vista poético da vida»
Apoiando-se na ideia de que o teatro lida com «ideias e transformação», o director artístico da CTMP tem consciência de que o novo teatro parece ter substituído «a preocupação de comunicar pela preocupação de exprimir-se». E insiste: «Nós vivemos numa época em que a grande informação e as sensações em geral são activadas através dos meios tecnológicos. Ora aí está: o teatro portuense ainda não encontrou a sua própria linguagem. Obras capazes de propor a provável linguagem do futuro».
Ciente que «já é tempo de acabar com o sortilégio dos fósseis em que o nosso teatro se apoia», Seara Cardoso pretende concretizar um trabalho experimental (no mais largo sentido) em torno de Ubu-Rei ou os Poloneses de Alfred Jarry. De momento, tem em cena IP5 e está a ultimar a encenação da Cantora Careca de Ionesco (para a jovem companhia portuense Visões Úteis).