1998: HEI!

Figuras de Estilo

11 de Janeiro 1998

Texto e entrevista:
Fátima Dias Iken

TRANSGRESSOR E MOVIDO PELA REBELDIA, O TEATRO DE MARIONETAS É UM CASO SÉRIO NO PORTO. PARA LÁ DA POESIA, ESTES SERES ANIMADOS DE VIDA PRÓPRIA SÃO QUASE ARMAS DE GUERRA. POR TRÁS DELES ESTÁ JOÃO PAULO SEARA CARDOSO, DIRECTOR DO TEATRO DE MARIONETAS DO PORTO QUE, COMO A PRÒPRIA FIGURA DO TÍTERE “ROBERTO”, NÃO ESTÁ COM MEIAS MEDIDAS. SEM PAPAS NA LÍNGUA E DESPREZANDO CABOTINISMOS, VARRE AS CONVENÇÕES E AS TEIAS DE ARANHA PARA DAR UMAS BOAS “PAULADAS” NO ESTADO ACTUAL DO TEATRO PORTUGUÊS QUE CONTESTA POR “SER FEITO COM PRESERVATIVO”. ARRISCAR É A SUA PALAVRA DE ORDEM.

Isto de trabalhar com marionetas é uma espécie de estado de alma. É quase um universo à parte dentro do próprio teatro, não?

Sim. Acho que há algo que distingue uma pessoa que opta pelo teatro de marionetas, sem dúvida. Há um certo fetichismo que faz parte de uma linguagem do teatro muito específica, mas não é possível fazer marionetas sem sentir o teatro na sua verdadeira acepção.

A opção por este tipo de teatro foi uma forma de contradizer uma certa ortodoxia vigente?

A minha opção pelas marionetas é um bocado a minha recusa ao teatro naturalista. Não é possível o naturalismo com marionetas e esta é uma maneira de recusar esse lado do teatro que me irrita imenso e que eu detesto.

Porquê?

Porque já há um lado paradoxal no teatro que é o facto de serem actores a representar o próprio homem. Se fazemos coisas muito próximas da vida é impossível que o teatro seja um espelho dessa vida. Com as marionetas consegue-se esse afastamento do real criando duplos do homem, o que é muito difícil com actores, sobretudo actores representando de uma forma naturalista. Não me interessa fazer teatro para traduzir as coisas tal qual elas se passam no mundo. Cada vez se faz mais um teatro em que as pessoas não são surpreendidas.

Paul Claudel dizia que “o fantoche é uma palavra que age”. Nesta sintonia estão espectáculos seus como o “Vai no Batalha” ou o “IP5”. As marionetas são uma espécie de contra-poder, uma arma de guerra, para além do lado poético e inofensivo que encerram?

As marionetas, já num tempo passado, estiveram sempre do lado de cá, contras as correntes de poder. Uma das coisas de que me quero orgulhar é de estar sempre do lado de cá,. Ser artista nunca pode ser estar do lado de lá. Uma forte opção estética é sempre uma opção anti-poder, de sobressalto. Temos que sentir que somos capazes de mudar o mundo ao fazer pequeníssimas revoluções que mudam a corrente das coisas. Em relação ao teatro isto é muito verdade. Muito do teatro que se faz hoje em dia, por não mudar as formas de pensamento, é reaccionário.

É um teatro “yes man”...

Neste momento instalou-se uma apatia no teatro português, uma dependência enorme do dinheiro e sobretudo uma falta aflitiva de mudanças estéticas. O teatro português neste momento é um teatro feito com preservativo, um teatro seguro. Ninguém corre riscos, nem o criador, nem os actores, nem o público. Aquilo faz-se, as pessoas batem palmas, vão para casa e nada se modificou no seu íntimo.

De que males é que o teatro português ainda padece?

Em Portugal faz-se um teatro fora de prazo e, embora as pessoas não aceitem, temos agora um exemplo fantástico. O PONTI, que foi um acontecimento cultural muito importante desta cidade, teve a sua parte má pelos espectáculos portugueses.

Mas afinal o que leva a averbar que o nosso teatro está fora do prazo?

Os criadores que mantiveram uma vitalidade muito grande nos anos 70 e 80 estão esgotados e o Estado continua a atribuir a essas mesmas pessoas subsídios de antiguidade. Quer dizer que privilegiaram esse teatro que já não tem vitalidade e que já não corresponde a uma certa contemporaneidade. Basta dizer - sem desprimor para a companhia em causa, que tem um projecto até inteligente e coerente - que a Seiva Trupe recebeu um subsídio que é quase maior que todos os grupos do Porto somados. Alguma coisa não está certa. Em vez de se privilegiarem os novos criadores. As novas formas de estar no teatro, as mudanças estéticas, privilegia-se quem está nas coisas há muito tempo e não foi capaz de renovar a sua atitude enquanto artistas e agentes de um projecto artístico.

Mas é indesmentível o “boom” de companhias que surgiu nos últimos tempos no Porto. Isso não traduz um fenómeno positivo?

Embora haja um surgimento de muitos agentes teatrais, por exemplo no Porto, e de dezenas de novos actores, infelizmente isso não tem sido acompanhado por um surgimento de novos criadores, novos líderes de projectos teatrais. Os projectos teatrais dos anos 80 nunca surgiam desfasados de um líder, de alguém que liderava o projecto artístico. Hoje, todos estes grupos do Porto não têm um líder artístico e quando é preciso um encenador recorre-se a Lisboa.

Faltam encenadores e socos no estômago no teatro português?

A falta de novos encenadores em termos geracionais é preocupante. Eram essas pessoas que podiam fazer pequenas revoluções neste momento. As revoluções são importantes e não são os novos grupos com os encenadores antigos que as podem fazer.

Sente que não existem novas tendências, como se propala?

Basta ver que o PONTI convidou as chamadas “novas tendências” para se apresentarem no Porto e foi uma desgraça total. De Braga a Lisboa - infelizmente o Porto não esteve representado não sei porquê. Há uma crise qualquer a nível dos criadores teatrais. Quando vejo esses espectáculos sinto que as pessoas não têm nada para dizer. Estamos numa geração cavaquista em que os valores que se inculcaram nos jovens foram os de sucesso e em que o valor supremo da vida foi instituído como sendo o dinheiro e há um conformismo terrível por parte dos artistas.

É uma experiência recomendável ser actor, no final de milénio, no Porto?

No Porto vivemos num meio culturalmente pouco rico. Somos a Segunda cidade do País e podíamos Ter uma vida cultural semelhante, por exemplo, a Barcelona e não temos. Nesta cidade há o triângulo de ouro que é a Agustina Bessa-Luís. O Siza Vieira e o Manoel de Oliveira, pessoas de outra geração. Não aparecem grandes vultos culturais no Porto, a não ser, talvez, na única área em que o Porto teve grande vitalidade nos últimos tempos que é a música, eu acho.

Acha que subsiste o reinado da “capela”?

É evidente que neste momento há um “lobby” cultural muito importante ligado ao poder. Não me preocupam os “lobbies”, preocupa-me é que haja coisa menos claras ou medíocres que possam fazer os “lobbies”. Toda a gente ataca o Ricardo Pais porque é do “lobby” do governo mas o que é certo é que o Ricardo Pais é um homem inteligente, tem um projecto para o S. João e enquanto não o vir a fazer uma grande porcaria não vou estar contra ele. E tenho a certeza que no dia em que o Ricardo Pais sair do S. João vai haver um vazio muito grande na liderança daquele teatro. E recordo que o Ricardo Pais foi para director do S. João porque não é possível encontrar no Porto ninguém à altura da direcção daquele teatro. Se no passado estava lá uma pessoa que não tinha mínima vocação para estar nesse lugar, neste momento está um homem de teatro que tem um projecto para ali, coerente e inteligente. A única coisa que pode causar é inveja às pessoas.

Qual é a leitura que faz da recente atribuição de subsídios por parte do Ministério da Cultura?

Isso foi perpetuar o sexo seguro. Aumentaram a inflação a todos os grupos e pronto. E deram um bónus ao Jorge Silva Melo, que fazia muito barulho. Crítico é haver 80 mil contos de prémio de antiguidade para a Cornucópia, ou 60 mil para a Seiva Trupe, companhias institucionais pesadas, e continuar a haver ao lado um grupo como o “Visões Úteis” ou a Companhia de Teatro de Marionetas do Porto com dez mil contos. Isso é inadmissível e é preciso ter coragem política para que não haja essas discrepâncias. Mas este governo é incapaz de fazer grandes mudanças.

Mas também há aqueles que se dão ao luxo de recusar apoios. Como é que vê a recusa de subsídio por parte do TEP?

O TEP ou muda ou se extingue. Como não foi capaz de se mudar, eu completamente a favor da extinção. O TEP não estar continuamente pendurado na honra e no passado glorioso para perpetuar a situação artisticamente medíocre em que tem estado nestes últimos tempos. Depois de alguns espectáculos que vi recentemente do TEP, tão maus, não há outra solução que não seja desaparecer, porque é um cadáver que já cheira mal há alguns anos. E o António Pedro, que foi o último grande vulto do teatro na cidade do Porto, não merecia que o TEP passasse pelas situações que tem passado ultimamente.

A inexistência de produção criativa de dramaturgia portuguesa é outra espécie de “no way out” do teatro português. Qual a leitura que faz deste facto?

O Almeida Garrett já dizia que o português não tem génio dramático. Apesar de algumas pessoas defenderem a dramaturgia portuguesa, eu acho que ela é uma merda. Estou farto do Gil Vicente, uma espécie, na época, de neotreatismo, como cançonetismo agradável às classes dominantes. Toda a gente diz que o Gil Vicente tem muitas subtilezas subversivas, eu acho piada, mas... Depois disso houve o António José da Silva. Os românticos são uma desgraça. Dos autores deste século nenhum me entusiasma e actualmente não vejo nada de novo a surgir na dramaturgia portuguesa, nem a mínima hipótese de se fazerem peças com base nesses textos, a não ser casos muito isolados como a Luísa Costa Gomes. Não existe em Portugal uma escrita dramática e muito menos uma dramaturgia contemporânea.

O resultado é optar normalmente por autores estrangeiros.

Exacto, e sempre em textos de autores que já fedem, já morreram ou já passaram à história. Uma pessoa precisa de ter referências contemporâneas. Por muito que se faça Shakespeare ou um autor do século de ouro espanhol de uma forma actual, há uma linguagem com quinhentos anos que pesa e eu gostaria de ver os grandes problemas da existência humana que são tratados nas comédias gregas numa forma de escrita contemporânea.

É de esperar que não descortine grande evolução nos últimos anos no teatro made in Portugal...

Não falo destas coisas de forma genérica, não quero dizer que não haja honrosas excepções. Parece-me que o Jorge Silva Melo teve uma experiência interessante de escrita contemporânea embora um bocado limitada às contribuições dos actores. Não há um tratamento verdadeiramente artístico do texto. Um período fantástico do teatro português foi sem dúvida nos anos sessenta, com o António Pedro. Ou o próprio Carlos Avillez, no Teatro Experimental de Cascais, com o surgimento de uma nova geração de artistas dispostos a mudar. Depois houve a fase maravilhosa do teatro pós 25 de Abril - altura em que comecei a interessar-me por estas coisas - até princípios dos anos 80. Daí para cá há uma estagnação enorme, sem dúvida.

Como é que vai ser o vosso espectáculo para a EXPO?

Todos os anos na Expo há um espectáculo ao fim da tarde que se chama “Peregrinação” e aí desfilam doze máquinas cénicas. Temos o orgulho de termos sido um dos grupos convidados. O espectáculo chama-se “Máquina Homem”. São duas marionetas gigantes numa plataforma metálica, dois clones que lutam um contra o outro, numa espécie de alusão ao homem no fim de milénio. Em cena está a questão da clonagem e o facto de sermos cada vez mais iguais uns aos outros. E tem o grande atractivo de poder ser visto por 15 ou 20 milhões de pessoas. Aliás, somos o único grupo do Porto a ser convidado para trabalhar na EXPO.

Para lá da intervenção, o seu trabalho move-se muito no universo poético, na escolha de autores como Lewis Carrol ou Müller...

O teatro tem imenso a ver com a linguagem poética, é muito do interior. Mas essa linguagem também é transgressora na medida em que não é quotidiana. A linguagem das telenovelas ou do teatro naturalista não é normalmente transgressora porque é quotidiana, não se afasta da vida o suficiente para a ver de forma diferente.

Mas as pessoas gostam dessas coisas quotidianas. A atitude letárgica do público também não influi, ao tornar o teatro menos provocatório e mais anódino?

Em 90% dos casos, é o que me acontece quando vou ver hoje uma peça de teatro. Os meus sentidos não são despertos para nada e as emoções não são estimuladas. As coisas soam-me a falso. Provocar é um risco e ninguém quer correr riscos. Vivemos um bocado o modelo teatral que se instituiu há uns anos e que prevalece no íntimo de muito público, que é o modelo de La Féria. É o modelo de sucesso, do dinheiro, do teatro-divertimento, que tem pouco a ver com o homem, a sua existência, com as coisas mais fortes que nos movem neste mundo. No fundo, daqui a uns anos, somos a geração SIC.

© Teatro de Marionetas do Porto 2008